Sexta-feira, Agosto 15, 2008
Quinta-feira, Agosto 14, 2008
Segunda-feira, Julho 23, 2007
Drummond
Claros enigmas
Entrevista de Carlos Drummond De Andrade a Luiz Fernando Emediato, publicada no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo em 15 de agosto de 1987
Era inevitável: todas as manhãs ele via a morte no espelho. Não porque a morte tenha sido sempre um tema constante, quase obsessivo, em sua obra amarga, descrente de Deus, do mundo e dos homens. É que via o rosto no espelho, os cabelos brancos, as manchas na pele e descobria: estava ficando velho. A vida estava no fim. E foi assim - falando da morte, desencantado e amargo, mas também irônico e brincalhão - que ele concedeu sua última grande entrevista a um jornal. Quando fez, ao longo de quase quatro horas, um emocionado depoimento de 20 mil palavras, das quais o Caderno 2 publicou três mil - as mesmas que republicamos hoje. Foi com ceticismo e desesperança - mas fazendo questão de afirmar que viver vale a pena, "embora não tenha pedido para nascer" - que ele passou a vida a limpo.
A infância "nem feliz nem infeliz". A juventude - quando pôs fogo em um bonde (puro divertimento). A vida de funcionário público da ditadura Vargas (fidelidade ao amigo Gustavo Capanema, ministro). O cidadão que votou em todo o tipo de gente - de Jânio Quadros aos candidatos do PT. Os livros - mais de 40. Infância, poesia, amor, sexo, morte, política, Deus - Drummond falou como nunca. No final, uma frase que só poderia ser dele: "Eu não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida e se esgota, termina. Depois disso, mais nada".
Luiz Fernando Emediato
Emediato - o senhor tem boas recordações da sua Infância?
Drummond - Eu tenho sim. Eu vivia em um meio rural em que criança gozava de grande liberdade. O cenário era vasto e tanto a cidade quanto os arredores, o campo, nos dava uma grande liberdade.
O senhor teve uma infância feliz?
Drummond - Não sei se pode chamar de feliz a infância, porque há sempre aqueles traumas da falta de entendimento com os adultos, o mistério da vida que a gente não decifra. Eu acho que uma criança pode ser tão feliz ou tão infeliz quanto um adulto.
Qual sua recordação infantil mais marcante?
Drummond - O cometa Halley. É a lembrança mais profunda. pois realmente foi deslumbrante. Eu tinha sete anos. Eu não estava esperando aquilo, não estava, preparado, vivia na rotina, brincando...
O senhor brincava de quê?
Drummond - De plantar bananeira, aquele brinquedo de montar no outro e sair correndo... Como é que chamava aquilo? Pular carniça. E de gata parida. Você sabe o que é gata parida?
Não.
Drummond - A gente sentava num banco, cinco ou seis sujeitos se espremiam, para ver quem caía do banco primeiro. Era bom, era gostoso. Naquele tempo não tinha gelo, eletricidade, cinema, automóvel. Mas a gente vivia muito bem e não sentia falta de nada. Hoje, se a televisão for suspensa, a criança morre de desgosto.
O senhor lembra quando viu o gelo pela primeira vez?
Drummond - Minha experiência com o sorvete foi trágica. Não sabia como tomar sorvete e meu irmão, que já era mais civilizado do que eu, tomou com a maior galhardia. Eu, não; eu metia o dente no sorvete e sentia aquela dor horrorosa (risos). E aquela humi lhação, porque meu irmão não queria que eu de monstrasse que não sabia tomar sorvete, e eu repelia o sorvete e ele falava: "Toma, desgraçado!" (risos)
O senhor tem alguma lembrança amarga da infância?
Drummond - A incompreensão. Éramos seis irmãos e havia dificuldade de se entender, entre todos. Só o meu irmão mais velho, depois de mim, é que era meu companheiro. Eu era fraco, fraquinho, e ele toma va a minha defesa, mas quando acabava aquilo ele baixava em cima de mim também. Era uma guerra.
E as namoradinhas?
Drummond - Eu tive várias namoradas. Mas o namoro no meu tempo era à distância. Uma menina morava num sobrado, no segundo andar, e eu namorava da rua, da esquina, olhando assim pra ela. Um sorriso era um prêmio, uma gratificação enorme. Não havia contato pessoal. Depois, quando jovem, em Belo Horizonte, eu sentia muito a dificuldade de aproximação com as moças. Era proibido olhar para as mulheres. Na praça da Liberdade, você conhece bem, as moças andavam pra baixo e pra cima, e os rapazes ficavam olhando. Mas era só isso. Elas iam acompanhadas ou da mãe ou de um irmão, e o irmão usava bengala, que era um instrumento muito poderoso, que impedia que a gente tentas sê qualquer liberdade maior - um beijo, por exemplo. Quem é que podia beijar uma moça? Era um problema dificílimo.
Consta que o senhor foi expulso de um colégio. É verdade?
Drummond - Eu estudei dois anos no colégio dos Jesuítas, em Friburgo, e era considerado um dos melhores alunos da classe, mas descobriram um dia que eu era um elemento nocivo.
Nocivo, por quê?
Drummond - Talvez fosse uma tentativa de manifestar independência de espírito. Eu fui expulso de uma ma neira muito arbitrária, sem direito de defesa. Fizeram uma reunião pública e, de surpresa, o próprio padre reitor declarou-me indigno, diante de todos, de permanecer naquele estabelecimento. Ajunte suas coisas e saia da sala", disse ele. Eu tinha 14, ou 15 anos. Foi terrível. Fui confinado num quarto, não podia nem dormir com os outros e tive de sair de madrugada, sem me despedir de ninguém.
Isso marcou multo o senhor, parece.
Drummond - Foi terrível. Tomei o trem com moral baixíssi mo. Havia no trem uma viúva toda de preto, com duas meninas tam:bém de preto, e uma delas olhou para mim e sorriu. Esqueci completamente a minha desgraça e fiquei namorando a garota, mas elas desceram numa estação e meu moral voltou abaixo do zero, até chegar em Belo Horizonte.
Como o senhor explicou essa história para o seu pai?
Drummond - O jesuíta é muito falso, muito hipócrita. Neste particular foram generosos comigo, não disseram a verdade a meu pai. Apenas aconselharam que, por motivos outros, me transferisse de escola.
Mas o senhor contou a verdade para seu pai?
Drummond - Não. Meu pai era um homem muito reto, mas sei lá se ia aprovar ou não...
Ele era fazendeiro em Minas?
Drummond - Sim. Era considerado um homem muito rico, porque todo mundo era pobre no interior de Minas. Então, qualquer pessoa que tivesse um palmo de terra era um afortunado.
Como era seu relacionamento com ele?
Drummond - Não foi fácil, não. Meu pai foi incumbido pela sociedade doméstico-conjugal de ser o juiz, o justiceiro. Minha mãe era aquela doçura e, quando via que estávamos nos comportando mal, apelava para meu pai, que tomava a atitude do homem que castigava. Mas a gente nunca aprendia. só muito mais tarde entendi que ele era obrigado a fazer aquilo. Custei a compreender isto.
Que tipo de castigo ele dava para os filhos?
Drummond - Prendia no quarto, cortava sobremesa... De vez em quando dava uns tapas. Uma vez achei que ele ia me bater e levantei a mão para não apanhar na cara e ele ficou estarrecido, pensou que eu ia bater nele. Meu irmão, que era meio safado, então gritou: "Você é um parricida". Eu respeitava muito meu pai. Tenho muita saudade dele, muita saudade mesmo.
E a sua adolescência, como foi?
Drummond - Tumultuada. Depois da expulsão do colégio jesuíta fui morar em pensão, em Belo Horizonte. Tive a sorte de encontrar os melhores amigos da minha vida.
Faziam multa farra?
Drummond - Tomávamos cerveja no Bar do Ponto - você lembra do Bar do Ponto?
Não.
Drummond - Sim, não é do seu tempo. Eu sou uma múmia, bem? (risos) O Bar do Ponto não existe mais. Quando sobrava algum dinheiro a gente esticava na zona, na Rua Guaicurus, tinha lá um restaurante onde a gente ceava um famoso bife a cavalo. A maior delícia.
O senhor se lembra de sua primeira experiência sexual ali na Rua Guaicurus?
Drummond - Não guardei não. Isso nem vale a pena contar... Mas não foi na rua Guaicurus. Mas, sabe, não é assim tão interessante, to do mundo tem lá um dia a sua primeira vez e fica meio espantado, descobre o mundo.
O senhor bebia muito?
Drummond - Não, só uma cerveja. E Martini... E o Madeira leve, uma espécie de vinho do Porto.
E droga, havia?
Drummond - Havia a cocaína. Eu experimentei uma vez e não achei graça nenhuma, não senti nada. Era falsificada, uma espécie de bicarbonato. O que a gente apreciava mui to era o éter. E também o lança-perfume, mas só no carnaval. Eu gostava muito de uma frase sobre droga que dizia assim: "A cigarra gelada do éter". De fato, dava uma sensação de cigarra cantando. Zunia. Lançava o lança-perfume no próprio lenço e eu sentia aquela vibração, aque la fúria.
É verdade que naquela época, anos 20, em Belo Horizonte, o senhor e o Pedro Nava tocaram fogo numa casa?
Drummond - É verdade. Metemos fogo num varal de roupas dentro da casa de umas moças, as Vivacquas, e o fogo se alastrou. E então eu disse ao Nava: vamos desistir dessa bobagem. Demos a volta, apertamos a campainha. As moças queriam saltar. Ajudamos a apagar o fogo, como heróis. Um guarda-civil tinha visto tudo, e no outro dia fomos chamados à delegacia, mas o delegado era casado com uma parenta minha e eles abafaram a história. Surgiu a versão de que tínhamos tocado fogo na casa para vermos as moças de camisola, quando elas fugissem. Foi pura farra, sem nenhuma intenção.
Diz a história que o senhor também tocou fogo num bonde. O senhor por acaso era um incendiário?
Drummond - É, talvez eu tivesse essa vocação, sem perceber. Mas o caso do bonde foi um simples protesto de estudantes. Tinham aumentado o preço dos ingressos do cinema para dois mil réis, e aquilo foi considerado um escândalo. Não podíamos aceitar. Decidimos então atacar os bondes. Afastamos o motorneiro - não sei,como conseguimos força para isso - e tocamos fogo nele. Até um pedaço do bonde eu consegui levar para casa, como um troféu. (Risos) A vida em Belo Horizonte era uma mesmice.
Parece que sua adolescência foi muito divertida. Metendo fogo em casas, se divertindo com a policia...
Drummond - Foi divertida, sim. Ao mesmo tempo havia a preocupação literária. Todos nós escrevíamos. Nós nos reuníamos toda noite, cada um mostrava seu trabalho e os outros criticavam com muita serenidade, com muita objetividade. O Milton Campos, o João Alphonsus, o Nava...
O senhor teve na juventude alguma paixão desmedida, além da Greta Garbo, sobre quem escreveu uma crônica?
Drummond - Você está explorando muito a minha vida, e ela é muito pouco interessante.
Vamos falar de literatura, então. Mas o senhor não acha que sua obra pode ter sido determinada pelo que aconteceu na sua infância, na sua adolescência e, depois, na sua maturidade, essa carga toda de experiência de vida?
Drummond - A minha obra literária foi determinada pela circunstância de eu ser mineiro. Mineiro do interior de Minas, uma região de mineração, onde a dificuldade de comunicação era maior do que em outras zonas do Estado. Nós vivíamos ilhados. Éramos fechados por necessidade e por contingência
O senhor acha então que Minas é um lugar especial?
Drummond - Você é mineiro, não é? Minas foi um lugar especial. Hoje não é.
O senhor foi autodidata, não é? Isso por acaso o limitou em alguma coisa.
Drummond - É. eu fiz maus cursos. Tenho apenas o terceiro ano ginasial. Estudei Farmácia numa escola livre. Eu não tenho uma formação cultural básica,não é?, que possa ser caracterizada como de um escritor de nível médio. Um escritor consciente de seu ofício deveria ter uma formação cultural bastante boa, como de conhecimento de literaturas estrangeiras. A minha formação foi mais francesa.
Será que sua poesia teria sido diferente se o senhor tivesse tido uma formação cultural e filosófica mais profunda?
Drummond - Não sei. Uma grande parte da cultura que a pessoa absorve para uma carreira literária é para não ser consumida, é só para servir de pano de fundo. Na realidade, a gente obedece a um impulso interior, à capacidade de imaginação que nós temos. Porque, se fôssemos nos prender àquilo que lemos ou aprendemos não escreveríamos nada.Todas as obras-primas já foram escritas. O contemporâneo não conta, a meu ver.
O senhor consegue explicar essa emoção que o leva a escrever intuitivamente?
Drummond - Eu sou inteiramente partidário da idéia da inspiração. Seja banal, antiquado, mas sem inspiração não se faz nem se escreve nada. A pessoa adquire a técnica de se comunicar e tem facilidade, como eu tenho, de escrever coisas. Mas aquela coisa profunda que vem das entranhas da gente, isto é inspiração.
Que é que o senhor sente no fundo do coração quando está criando?
Drummond - Quando estou criando um poema eu sinto uma certa exaltação física, um certo ardor. (Pausa) Não, não exageremos; também não é um estado de transe, de levitação. Mas sinto uma espécie de emoção particular que me impele a escrever. E isso me surge até em horas imprevistas, diante de um espetáculo, de uma criança dormindo na rua, um cachorro mexendo com o rabo, uma moça. Qualquer destas coisas pode provocar na gente um estado poético. Ao lado disso, há o lado crítico, depois.
Os seus escritos têm dois lados: um é humorado, alegre, lúdico. O outro é amargo. Qual dos dois é o verdadeiro?
Drummond - Eu acho que o mais sincero é o lado amargo, não é? Eu sou uma pessoa inteiramente pessimista, cética. Não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida, mas que se esgota e termina, acabou, não tem nada.
Vale a pena viver, apesar disso?
Drummond - Claro, porque deram a você essa oportunidade.
Ou viver é só uma fatalidade?
Drummond - É, porque você não pediu, você foi chamado. Então é uma fatalidade neste sentido. Então procure viver o menos desagradavelmente possível.
O senhor acredita em Deus?
Drummond - Não.
Só isso? Não?!
Drummond - Sou rigorosamente agnóstico. Uma pessoa que não pode afirmar a inexistência de Deus, da mesma maneira que não pode afirmar a existência. Não tenho, na minha capacidade intelectual. condições para afirmar que Deus existe. E, a não ser os teólogos. duvido que alguém mais tenha capacidade para isso. Mas eu passo muito bem sem Deus. Não me dá remorso e foi uma conquista da minha vida. à qual agradeço em parte aos meus queridos jesuítas. Porque eles é que começaram a fazer desabar em mim a idéia de Deus como um Todo-Poderoso que regula a vida e a morte das pessoas. Mas respeito profundamente qualquer forma de religião.
E a morte, Drummond?
Drummond - Eu estou encarando. não é? Outro dia um amigo meu perguntou a outro: "Você pensa na morte?" E ele respondeu: "Não penso em outra coisa".
O senhor brinca muito com a Idéia da morte.
Drummond - Desde menino que eu penso na morte. Sabe, eu queria ser cremado, mas não existe crematório no Rio, a Santa Casa, que vive do negócio de vender túmulos, impede a criação de crematórios. Quis ser então cremado em São Paulo, quando morrer, mas dá tanto trabalho, é preciso levar uma testemunha. uma burocracia. Não quero chatear ninguém, então comprei um túmulo no cemitério São João Batista, aqui no Rio. Tenho lá uma situação privilegiada, porque o meu túmulo está no alto do morro. No mesmo nível do mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Então é de igual para igual (risos). Mas. sabe eu tenho pena das pessoas que vão me sepultar, porque para chegar ao meu túmulo é preciso subir uma escadinha estreita. Não vai ser fácil. Mas não tenho culpa, foi o lugar que encontrei para comprar, não tinha outro.
O senhor é feliz?
Drummond - Não sei. Não sei. Eu não sei o que é ser feliz. Eu vivo, e vivo em paz com meus semelhantes.
O que é a esperança, para o senhor?
Drummond - Um fio muito fino,ao qual eu meu agarro para não morrer desesperado.
Um de seus poemas, José, é um poema desesperado, mas no final ele não se mata, ou seja: o senhor escreve coisas amargas, mas às vezes deixa uma abertura, uma ponta de esperança.
Drummond - Sim, ele não se mata. Ele marcha, ele anda.
O que o senhor acha do suicídio?
Drummond - Uma solução heróica. De uma grandeza moral enorme. A não ser, claro, quando o suicida é doente, que se mata porque está privado do raciocínio.
E a política? Como o senhor entrou na vida política?
Drummond - Entrei na política em 1945. Eu tinha sido chefe de gabinete de ministro no governo Vargas, mas não era político. Em 1945 eu simpatizava com o Partido Comunista e, durante três meses, meu nome apareceu no expediente do jornal do partido.A experiência não me deixou saudades, saí de lá com o rabo entre as pernas.
Por quê?
Drummond - Éramos diretores do jornal e nenhum de nós dirigia coisa nenhuma. O jornal censurava as coisas mais absurdas. Até informações. Fiquei desencantado com o partido. Não quis mais saber de comunismo.
Como é que o senhor se define hoje, ideologicamente?
Drummond - Eu não sou nada, nada. Eu seria um eleitor em potencial do Partido Socialista Brasileiro. Mas não sou mais eleitor, desisti de me recadastrar. O senhor não vai votar este ano, então? Não, não vou. Estou desencantado com isso. Tenho uma longa experiência de desencanto político. Em 1910, eu tinha sete anos de idade e o marechal Hermes da Fonseca foi eleito presidente da República com 400 mil votos redondos. Nem um a mais e nem um a menos. Por sua vez, o chefe da campanha civilista mandou telegramas para todos os diretórios civilistas noS Estados recomendando que aumentassem a votação nas notícias aos jornais. Houve fraudes dos dois lados.
O senhor votou em Jânio Quadros para presidente?
Drummond - Votei, E depois disso você acha que eu ainda vou votar em mais alguém?
O senhor apoiou o movimento de 64?
Drummond - Não apoiei não. Eu fui contra João Goulart, achei que a derrubada dele foi salutar. Mas uma semana depois já haviam praticado tais desmandos que não pude apoiar. Posso ter pecado por omissão por não ter denunciado logo, mas não apoiei.
O que é o que o senhor pensa da situação política no Brasil hoje?
Drummond - Não vou votar. Minha reação de desencanto explica tudo, não é?
E a República do escritor José Sarney?
Drummond - Não vejo nada, não. Eu acho que o Plano Cruzado foi uma boa idéia, vamos ser justos, uma idéia bem-intencionada. Mas estamos sem carne, não é? O congelamento não resolve. Estamos numa sociedade capitalista em que o motivo principal do trabalho é o lucro. O boi não tem opinião, coitado. Aliás, nessa história de congelamento, eu tenho muita simpatia é pelo boi, que está vivendo mais alguns meses no pasto.
O que é que o senhor sente quando vê, pelos jornais ou pela TV, que o Congresso está vazio?
Drummond - Eu acho terrível. E a gente não pode falar contra o Executivo, porque tem que falar mais mal ainda do Legislativo. O empreguismo, o clientelismo, o filhotismo, a falta de responsabilidade...
Um artista, um intelectual tem opiniões que pesam multo na sociedade. O senhor acha que...
Drummond - O que mais podemos fazer é conservar nossa dignidade. Não participando daquilo que nos pareça errado ou nocivo ao bem comum. A obrigação do escritor e do artista é fazer a melhor literatura, a melhor arte. Interpretar bem o sentido das coisas, o mistério da alma humana. o mistério das relações sociais. Não vejo como o artista pode influenciar na sociedade brasileira. Ele acaba sendo cantado pelos poderosos e prestando serviços a eles.
E a Constituinte?
Drummond - Eu gostaria muito que ela fosse realmente uma Constituinte. Mas vejo pouca probabilidade de se formar um grupo realmente poderoso e consciente, que sejam bons patriotas, para que possam fazer uma boa Constituição. Eu olho com certo susto a Constituinte. Uma coisa que acho muito importante é definir o papel das Forças Armadas. Não podem tutelar o regime democrático. Mas é difícil conseguir isso.
O senhor disse há pouco que, se votasse, votaria no Partido Socialista. O senhor acredita que exista socialismo real em algum país do mundo?
Drummond - O regime socialista a meu ver não é praticado nos países que se dizem socialistas. A não ser talvez na Escandinávia, onde há, realmente, um começo.
O senhor já foi convidado para visitar Cuba, como outros intelectuais que lá estiveram e até escreveram livros a respeito?
Drummond - Nunca fui, não. Aliás, uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: "Preciso conversar com você". Eu disse: "A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar!" Mas disse. "Pois não, venha". Apareceu em companhia de um cidadão moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: "Tenha paciência"!
E o embaixador? Ouviu e foi embora?
Drummond - Era delicado, como todo embaixador.
O senhor tem um poema, Favelário Nacional, em que diz que é difícil ser irmão das pessoas, ser solidário.
Drummond - Eu acho muito difícil. Fomos criados para sermos irmãos de nossos irmãos, e mesmo assim olhe lá. Somos irmãos de nossos irmãos e de nossos amigos - os demais são sócios, indiferentes ou inimigos, competidores. Se eu quiser ser irmão de um favelado eu acho que ele me cospe na cara.
O senhor tem escrito muito hoje em dia?
Drummond - Pouco, muito pouco.
O que é pouco para o senhor?
Drummond - No mês passado eu fiz 20 poemas curtos focalizando aspectos da vida de Manuel Bandeira.
Tem algum livro inédito de poesia?
Drummond - Tenho matéria para um livro, mas não pretendi publicar até agora. Quer ver? (Busca uma pasta com poemas cuidadosamente organizados, tira um, mostra.) Este aqui, Quadros em Exposição, eu fiz inspirado em grandes pinturas clássicas. Não vou à Europa, fiz olhando as cópias.
E seus poemas eróticos?
Drummond - Passaram da moda, não pretendo publicar.
O senhor lê a poesia que se faz hoje no Brasil?
Drummond - Eu acho muito ruim.
E o movimento concretista?
Drummond - Uma bobagem.
A poesia práxis também?
Drummond - É. Outra bobagem.
O senhor não vê valor nesses movimentos?
Drummond - O que há hoje no Brasil é uma diluição da poesia brasileira em termos até chatíssimos, porque todo mundo agora faz poesia, e ninguém faz poesia. É uma coisa incrível. O mal disto vem do Modernismo. O Modernismo rompeu, inovou, criou, deu novas formulações estéticas, mas ao mesmo tempo permitiu que todo mundo que não sabe escrever escrevesse. O pessoal não tem a menor noção de ritmo, de criação verbal e faz versos. Todos os dias agora aparecem antologias, e então aparecem 200 poetas, geralmente mulheres. E impressionante o número de mulheres que pensam que fazem versos.
E a poesia da Bruna Lombardi?
Drummond - Ainda agora estou gostando muito do trabalho dela na televisão.
Bem, acho que estamos no fim. O senhor quer dizer mais alguma coisa?
Drummond - Eu não. Não quero dizer nada. Você me arrancou uma porção de coisas que eu não devia dizer. Por minha iniciativa, eu não digo nada a ninguém, sabe?
"Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco."
(Poemas de Sete Faces, 1930)
Entrevista de Carlos Drummond De Andrade a Luiz Fernando Emediato, publicada no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo em 15 de agosto de 1987
Era inevitável: todas as manhãs ele via a morte no espelho. Não porque a morte tenha sido sempre um tema constante, quase obsessivo, em sua obra amarga, descrente de Deus, do mundo e dos homens. É que via o rosto no espelho, os cabelos brancos, as manchas na pele e descobria: estava ficando velho. A vida estava no fim. E foi assim - falando da morte, desencantado e amargo, mas também irônico e brincalhão - que ele concedeu sua última grande entrevista a um jornal. Quando fez, ao longo de quase quatro horas, um emocionado depoimento de 20 mil palavras, das quais o Caderno 2 publicou três mil - as mesmas que republicamos hoje. Foi com ceticismo e desesperança - mas fazendo questão de afirmar que viver vale a pena, "embora não tenha pedido para nascer" - que ele passou a vida a limpo.
A infância "nem feliz nem infeliz". A juventude - quando pôs fogo em um bonde (puro divertimento). A vida de funcionário público da ditadura Vargas (fidelidade ao amigo Gustavo Capanema, ministro). O cidadão que votou em todo o tipo de gente - de Jânio Quadros aos candidatos do PT. Os livros - mais de 40. Infância, poesia, amor, sexo, morte, política, Deus - Drummond falou como nunca. No final, uma frase que só poderia ser dele: "Eu não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida e se esgota, termina. Depois disso, mais nada".
Luiz Fernando Emediato
Emediato - o senhor tem boas recordações da sua Infância?
Drummond - Eu tenho sim. Eu vivia em um meio rural em que criança gozava de grande liberdade. O cenário era vasto e tanto a cidade quanto os arredores, o campo, nos dava uma grande liberdade.
O senhor teve uma infância feliz?
Drummond - Não sei se pode chamar de feliz a infância, porque há sempre aqueles traumas da falta de entendimento com os adultos, o mistério da vida que a gente não decifra. Eu acho que uma criança pode ser tão feliz ou tão infeliz quanto um adulto.
Qual sua recordação infantil mais marcante?
Drummond - O cometa Halley. É a lembrança mais profunda. pois realmente foi deslumbrante. Eu tinha sete anos. Eu não estava esperando aquilo, não estava, preparado, vivia na rotina, brincando...
O senhor brincava de quê?
Drummond - De plantar bananeira, aquele brinquedo de montar no outro e sair correndo... Como é que chamava aquilo? Pular carniça. E de gata parida. Você sabe o que é gata parida?
Não.
Drummond - A gente sentava num banco, cinco ou seis sujeitos se espremiam, para ver quem caía do banco primeiro. Era bom, era gostoso. Naquele tempo não tinha gelo, eletricidade, cinema, automóvel. Mas a gente vivia muito bem e não sentia falta de nada. Hoje, se a televisão for suspensa, a criança morre de desgosto.
O senhor lembra quando viu o gelo pela primeira vez?
Drummond - Minha experiência com o sorvete foi trágica. Não sabia como tomar sorvete e meu irmão, que já era mais civilizado do que eu, tomou com a maior galhardia. Eu, não; eu metia o dente no sorvete e sentia aquela dor horrorosa (risos). E aquela humi lhação, porque meu irmão não queria que eu de monstrasse que não sabia tomar sorvete, e eu repelia o sorvete e ele falava: "Toma, desgraçado!" (risos)
O senhor tem alguma lembrança amarga da infância?
Drummond - A incompreensão. Éramos seis irmãos e havia dificuldade de se entender, entre todos. Só o meu irmão mais velho, depois de mim, é que era meu companheiro. Eu era fraco, fraquinho, e ele toma va a minha defesa, mas quando acabava aquilo ele baixava em cima de mim também. Era uma guerra.
E as namoradinhas?
Drummond - Eu tive várias namoradas. Mas o namoro no meu tempo era à distância. Uma menina morava num sobrado, no segundo andar, e eu namorava da rua, da esquina, olhando assim pra ela. Um sorriso era um prêmio, uma gratificação enorme. Não havia contato pessoal. Depois, quando jovem, em Belo Horizonte, eu sentia muito a dificuldade de aproximação com as moças. Era proibido olhar para as mulheres. Na praça da Liberdade, você conhece bem, as moças andavam pra baixo e pra cima, e os rapazes ficavam olhando. Mas era só isso. Elas iam acompanhadas ou da mãe ou de um irmão, e o irmão usava bengala, que era um instrumento muito poderoso, que impedia que a gente tentas sê qualquer liberdade maior - um beijo, por exemplo. Quem é que podia beijar uma moça? Era um problema dificílimo.
Consta que o senhor foi expulso de um colégio. É verdade?
Drummond - Eu estudei dois anos no colégio dos Jesuítas, em Friburgo, e era considerado um dos melhores alunos da classe, mas descobriram um dia que eu era um elemento nocivo.
Nocivo, por quê?
Drummond - Talvez fosse uma tentativa de manifestar independência de espírito. Eu fui expulso de uma ma neira muito arbitrária, sem direito de defesa. Fizeram uma reunião pública e, de surpresa, o próprio padre reitor declarou-me indigno, diante de todos, de permanecer naquele estabelecimento. Ajunte suas coisas e saia da sala", disse ele. Eu tinha 14, ou 15 anos. Foi terrível. Fui confinado num quarto, não podia nem dormir com os outros e tive de sair de madrugada, sem me despedir de ninguém.
Isso marcou multo o senhor, parece.
Drummond - Foi terrível. Tomei o trem com moral baixíssi mo. Havia no trem uma viúva toda de preto, com duas meninas tam:bém de preto, e uma delas olhou para mim e sorriu. Esqueci completamente a minha desgraça e fiquei namorando a garota, mas elas desceram numa estação e meu moral voltou abaixo do zero, até chegar em Belo Horizonte.
Como o senhor explicou essa história para o seu pai?
Drummond - O jesuíta é muito falso, muito hipócrita. Neste particular foram generosos comigo, não disseram a verdade a meu pai. Apenas aconselharam que, por motivos outros, me transferisse de escola.
Mas o senhor contou a verdade para seu pai?
Drummond - Não. Meu pai era um homem muito reto, mas sei lá se ia aprovar ou não...
Ele era fazendeiro em Minas?
Drummond - Sim. Era considerado um homem muito rico, porque todo mundo era pobre no interior de Minas. Então, qualquer pessoa que tivesse um palmo de terra era um afortunado.
Como era seu relacionamento com ele?
Drummond - Não foi fácil, não. Meu pai foi incumbido pela sociedade doméstico-conjugal de ser o juiz, o justiceiro. Minha mãe era aquela doçura e, quando via que estávamos nos comportando mal, apelava para meu pai, que tomava a atitude do homem que castigava. Mas a gente nunca aprendia. só muito mais tarde entendi que ele era obrigado a fazer aquilo. Custei a compreender isto.
Que tipo de castigo ele dava para os filhos?
Drummond - Prendia no quarto, cortava sobremesa... De vez em quando dava uns tapas. Uma vez achei que ele ia me bater e levantei a mão para não apanhar na cara e ele ficou estarrecido, pensou que eu ia bater nele. Meu irmão, que era meio safado, então gritou: "Você é um parricida". Eu respeitava muito meu pai. Tenho muita saudade dele, muita saudade mesmo.
E a sua adolescência, como foi?
Drummond - Tumultuada. Depois da expulsão do colégio jesuíta fui morar em pensão, em Belo Horizonte. Tive a sorte de encontrar os melhores amigos da minha vida.
Faziam multa farra?
Drummond - Tomávamos cerveja no Bar do Ponto - você lembra do Bar do Ponto?
Não.
Drummond - Sim, não é do seu tempo. Eu sou uma múmia, bem? (risos) O Bar do Ponto não existe mais. Quando sobrava algum dinheiro a gente esticava na zona, na Rua Guaicurus, tinha lá um restaurante onde a gente ceava um famoso bife a cavalo. A maior delícia.
O senhor se lembra de sua primeira experiência sexual ali na Rua Guaicurus?
Drummond - Não guardei não. Isso nem vale a pena contar... Mas não foi na rua Guaicurus. Mas, sabe, não é assim tão interessante, to do mundo tem lá um dia a sua primeira vez e fica meio espantado, descobre o mundo.
O senhor bebia muito?
Drummond - Não, só uma cerveja. E Martini... E o Madeira leve, uma espécie de vinho do Porto.
E droga, havia?
Drummond - Havia a cocaína. Eu experimentei uma vez e não achei graça nenhuma, não senti nada. Era falsificada, uma espécie de bicarbonato. O que a gente apreciava mui to era o éter. E também o lança-perfume, mas só no carnaval. Eu gostava muito de uma frase sobre droga que dizia assim: "A cigarra gelada do éter". De fato, dava uma sensação de cigarra cantando. Zunia. Lançava o lança-perfume no próprio lenço e eu sentia aquela vibração, aque la fúria.
É verdade que naquela época, anos 20, em Belo Horizonte, o senhor e o Pedro Nava tocaram fogo numa casa?
Drummond - É verdade. Metemos fogo num varal de roupas dentro da casa de umas moças, as Vivacquas, e o fogo se alastrou. E então eu disse ao Nava: vamos desistir dessa bobagem. Demos a volta, apertamos a campainha. As moças queriam saltar. Ajudamos a apagar o fogo, como heróis. Um guarda-civil tinha visto tudo, e no outro dia fomos chamados à delegacia, mas o delegado era casado com uma parenta minha e eles abafaram a história. Surgiu a versão de que tínhamos tocado fogo na casa para vermos as moças de camisola, quando elas fugissem. Foi pura farra, sem nenhuma intenção.
Diz a história que o senhor também tocou fogo num bonde. O senhor por acaso era um incendiário?
Drummond - É, talvez eu tivesse essa vocação, sem perceber. Mas o caso do bonde foi um simples protesto de estudantes. Tinham aumentado o preço dos ingressos do cinema para dois mil réis, e aquilo foi considerado um escândalo. Não podíamos aceitar. Decidimos então atacar os bondes. Afastamos o motorneiro - não sei,como conseguimos força para isso - e tocamos fogo nele. Até um pedaço do bonde eu consegui levar para casa, como um troféu. (Risos) A vida em Belo Horizonte era uma mesmice.
Parece que sua adolescência foi muito divertida. Metendo fogo em casas, se divertindo com a policia...
Drummond - Foi divertida, sim. Ao mesmo tempo havia a preocupação literária. Todos nós escrevíamos. Nós nos reuníamos toda noite, cada um mostrava seu trabalho e os outros criticavam com muita serenidade, com muita objetividade. O Milton Campos, o João Alphonsus, o Nava...
O senhor teve na juventude alguma paixão desmedida, além da Greta Garbo, sobre quem escreveu uma crônica?
Drummond - Você está explorando muito a minha vida, e ela é muito pouco interessante.
Vamos falar de literatura, então. Mas o senhor não acha que sua obra pode ter sido determinada pelo que aconteceu na sua infância, na sua adolescência e, depois, na sua maturidade, essa carga toda de experiência de vida?
Drummond - A minha obra literária foi determinada pela circunstância de eu ser mineiro. Mineiro do interior de Minas, uma região de mineração, onde a dificuldade de comunicação era maior do que em outras zonas do Estado. Nós vivíamos ilhados. Éramos fechados por necessidade e por contingência
O senhor acha então que Minas é um lugar especial?
Drummond - Você é mineiro, não é? Minas foi um lugar especial. Hoje não é.
O senhor foi autodidata, não é? Isso por acaso o limitou em alguma coisa.
Drummond - É. eu fiz maus cursos. Tenho apenas o terceiro ano ginasial. Estudei Farmácia numa escola livre. Eu não tenho uma formação cultural básica,não é?, que possa ser caracterizada como de um escritor de nível médio. Um escritor consciente de seu ofício deveria ter uma formação cultural bastante boa, como de conhecimento de literaturas estrangeiras. A minha formação foi mais francesa.
Será que sua poesia teria sido diferente se o senhor tivesse tido uma formação cultural e filosófica mais profunda?
Drummond - Não sei. Uma grande parte da cultura que a pessoa absorve para uma carreira literária é para não ser consumida, é só para servir de pano de fundo. Na realidade, a gente obedece a um impulso interior, à capacidade de imaginação que nós temos. Porque, se fôssemos nos prender àquilo que lemos ou aprendemos não escreveríamos nada.Todas as obras-primas já foram escritas. O contemporâneo não conta, a meu ver.
O senhor consegue explicar essa emoção que o leva a escrever intuitivamente?
Drummond - Eu sou inteiramente partidário da idéia da inspiração. Seja banal, antiquado, mas sem inspiração não se faz nem se escreve nada. A pessoa adquire a técnica de se comunicar e tem facilidade, como eu tenho, de escrever coisas. Mas aquela coisa profunda que vem das entranhas da gente, isto é inspiração.
Que é que o senhor sente no fundo do coração quando está criando?
Drummond - Quando estou criando um poema eu sinto uma certa exaltação física, um certo ardor. (Pausa) Não, não exageremos; também não é um estado de transe, de levitação. Mas sinto uma espécie de emoção particular que me impele a escrever. E isso me surge até em horas imprevistas, diante de um espetáculo, de uma criança dormindo na rua, um cachorro mexendo com o rabo, uma moça. Qualquer destas coisas pode provocar na gente um estado poético. Ao lado disso, há o lado crítico, depois.
Os seus escritos têm dois lados: um é humorado, alegre, lúdico. O outro é amargo. Qual dos dois é o verdadeiro?
Drummond - Eu acho que o mais sincero é o lado amargo, não é? Eu sou uma pessoa inteiramente pessimista, cética. Não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida, mas que se esgota e termina, acabou, não tem nada.
Vale a pena viver, apesar disso?
Drummond - Claro, porque deram a você essa oportunidade.
Ou viver é só uma fatalidade?
Drummond - É, porque você não pediu, você foi chamado. Então é uma fatalidade neste sentido. Então procure viver o menos desagradavelmente possível.
O senhor acredita em Deus?
Drummond - Não.
Só isso? Não?!
Drummond - Sou rigorosamente agnóstico. Uma pessoa que não pode afirmar a inexistência de Deus, da mesma maneira que não pode afirmar a existência. Não tenho, na minha capacidade intelectual. condições para afirmar que Deus existe. E, a não ser os teólogos. duvido que alguém mais tenha capacidade para isso. Mas eu passo muito bem sem Deus. Não me dá remorso e foi uma conquista da minha vida. à qual agradeço em parte aos meus queridos jesuítas. Porque eles é que começaram a fazer desabar em mim a idéia de Deus como um Todo-Poderoso que regula a vida e a morte das pessoas. Mas respeito profundamente qualquer forma de religião.
E a morte, Drummond?
Drummond - Eu estou encarando. não é? Outro dia um amigo meu perguntou a outro: "Você pensa na morte?" E ele respondeu: "Não penso em outra coisa".
O senhor brinca muito com a Idéia da morte.
Drummond - Desde menino que eu penso na morte. Sabe, eu queria ser cremado, mas não existe crematório no Rio, a Santa Casa, que vive do negócio de vender túmulos, impede a criação de crematórios. Quis ser então cremado em São Paulo, quando morrer, mas dá tanto trabalho, é preciso levar uma testemunha. uma burocracia. Não quero chatear ninguém, então comprei um túmulo no cemitério São João Batista, aqui no Rio. Tenho lá uma situação privilegiada, porque o meu túmulo está no alto do morro. No mesmo nível do mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Então é de igual para igual (risos). Mas. sabe eu tenho pena das pessoas que vão me sepultar, porque para chegar ao meu túmulo é preciso subir uma escadinha estreita. Não vai ser fácil. Mas não tenho culpa, foi o lugar que encontrei para comprar, não tinha outro.
O senhor é feliz?
Drummond - Não sei. Não sei. Eu não sei o que é ser feliz. Eu vivo, e vivo em paz com meus semelhantes.
O que é a esperança, para o senhor?
Drummond - Um fio muito fino,ao qual eu meu agarro para não morrer desesperado.
Um de seus poemas, José, é um poema desesperado, mas no final ele não se mata, ou seja: o senhor escreve coisas amargas, mas às vezes deixa uma abertura, uma ponta de esperança.
Drummond - Sim, ele não se mata. Ele marcha, ele anda.
O que o senhor acha do suicídio?
Drummond - Uma solução heróica. De uma grandeza moral enorme. A não ser, claro, quando o suicida é doente, que se mata porque está privado do raciocínio.
E a política? Como o senhor entrou na vida política?
Drummond - Entrei na política em 1945. Eu tinha sido chefe de gabinete de ministro no governo Vargas, mas não era político. Em 1945 eu simpatizava com o Partido Comunista e, durante três meses, meu nome apareceu no expediente do jornal do partido.A experiência não me deixou saudades, saí de lá com o rabo entre as pernas.
Por quê?
Drummond - Éramos diretores do jornal e nenhum de nós dirigia coisa nenhuma. O jornal censurava as coisas mais absurdas. Até informações. Fiquei desencantado com o partido. Não quis mais saber de comunismo.
Como é que o senhor se define hoje, ideologicamente?
Drummond - Eu não sou nada, nada. Eu seria um eleitor em potencial do Partido Socialista Brasileiro. Mas não sou mais eleitor, desisti de me recadastrar. O senhor não vai votar este ano, então? Não, não vou. Estou desencantado com isso. Tenho uma longa experiência de desencanto político. Em 1910, eu tinha sete anos de idade e o marechal Hermes da Fonseca foi eleito presidente da República com 400 mil votos redondos. Nem um a mais e nem um a menos. Por sua vez, o chefe da campanha civilista mandou telegramas para todos os diretórios civilistas noS Estados recomendando que aumentassem a votação nas notícias aos jornais. Houve fraudes dos dois lados.
O senhor votou em Jânio Quadros para presidente?
Drummond - Votei, E depois disso você acha que eu ainda vou votar em mais alguém?
O senhor apoiou o movimento de 64?
Drummond - Não apoiei não. Eu fui contra João Goulart, achei que a derrubada dele foi salutar. Mas uma semana depois já haviam praticado tais desmandos que não pude apoiar. Posso ter pecado por omissão por não ter denunciado logo, mas não apoiei.
O que é o que o senhor pensa da situação política no Brasil hoje?
Drummond - Não vou votar. Minha reação de desencanto explica tudo, não é?
E a República do escritor José Sarney?
Drummond - Não vejo nada, não. Eu acho que o Plano Cruzado foi uma boa idéia, vamos ser justos, uma idéia bem-intencionada. Mas estamos sem carne, não é? O congelamento não resolve. Estamos numa sociedade capitalista em que o motivo principal do trabalho é o lucro. O boi não tem opinião, coitado. Aliás, nessa história de congelamento, eu tenho muita simpatia é pelo boi, que está vivendo mais alguns meses no pasto.
O que é que o senhor sente quando vê, pelos jornais ou pela TV, que o Congresso está vazio?
Drummond - Eu acho terrível. E a gente não pode falar contra o Executivo, porque tem que falar mais mal ainda do Legislativo. O empreguismo, o clientelismo, o filhotismo, a falta de responsabilidade...
Um artista, um intelectual tem opiniões que pesam multo na sociedade. O senhor acha que...
Drummond - O que mais podemos fazer é conservar nossa dignidade. Não participando daquilo que nos pareça errado ou nocivo ao bem comum. A obrigação do escritor e do artista é fazer a melhor literatura, a melhor arte. Interpretar bem o sentido das coisas, o mistério da alma humana. o mistério das relações sociais. Não vejo como o artista pode influenciar na sociedade brasileira. Ele acaba sendo cantado pelos poderosos e prestando serviços a eles.
E a Constituinte?
Drummond - Eu gostaria muito que ela fosse realmente uma Constituinte. Mas vejo pouca probabilidade de se formar um grupo realmente poderoso e consciente, que sejam bons patriotas, para que possam fazer uma boa Constituição. Eu olho com certo susto a Constituinte. Uma coisa que acho muito importante é definir o papel das Forças Armadas. Não podem tutelar o regime democrático. Mas é difícil conseguir isso.
O senhor disse há pouco que, se votasse, votaria no Partido Socialista. O senhor acredita que exista socialismo real em algum país do mundo?
Drummond - O regime socialista a meu ver não é praticado nos países que se dizem socialistas. A não ser talvez na Escandinávia, onde há, realmente, um começo.
O senhor já foi convidado para visitar Cuba, como outros intelectuais que lá estiveram e até escreveram livros a respeito?
Drummond - Nunca fui, não. Aliás, uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: "Preciso conversar com você". Eu disse: "A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar!" Mas disse. "Pois não, venha". Apareceu em companhia de um cidadão moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: "Tenha paciência"!
E o embaixador? Ouviu e foi embora?
Drummond - Era delicado, como todo embaixador.
O senhor tem um poema, Favelário Nacional, em que diz que é difícil ser irmão das pessoas, ser solidário.
Drummond - Eu acho muito difícil. Fomos criados para sermos irmãos de nossos irmãos, e mesmo assim olhe lá. Somos irmãos de nossos irmãos e de nossos amigos - os demais são sócios, indiferentes ou inimigos, competidores. Se eu quiser ser irmão de um favelado eu acho que ele me cospe na cara.
O senhor tem escrito muito hoje em dia?
Drummond - Pouco, muito pouco.
O que é pouco para o senhor?
Drummond - No mês passado eu fiz 20 poemas curtos focalizando aspectos da vida de Manuel Bandeira.
Tem algum livro inédito de poesia?
Drummond - Tenho matéria para um livro, mas não pretendi publicar até agora. Quer ver? (Busca uma pasta com poemas cuidadosamente organizados, tira um, mostra.) Este aqui, Quadros em Exposição, eu fiz inspirado em grandes pinturas clássicas. Não vou à Europa, fiz olhando as cópias.
E seus poemas eróticos?
Drummond - Passaram da moda, não pretendo publicar.
O senhor lê a poesia que se faz hoje no Brasil?
Drummond - Eu acho muito ruim.
E o movimento concretista?
Drummond - Uma bobagem.
A poesia práxis também?
Drummond - É. Outra bobagem.
O senhor não vê valor nesses movimentos?
Drummond - O que há hoje no Brasil é uma diluição da poesia brasileira em termos até chatíssimos, porque todo mundo agora faz poesia, e ninguém faz poesia. É uma coisa incrível. O mal disto vem do Modernismo. O Modernismo rompeu, inovou, criou, deu novas formulações estéticas, mas ao mesmo tempo permitiu que todo mundo que não sabe escrever escrevesse. O pessoal não tem a menor noção de ritmo, de criação verbal e faz versos. Todos os dias agora aparecem antologias, e então aparecem 200 poetas, geralmente mulheres. E impressionante o número de mulheres que pensam que fazem versos.
E a poesia da Bruna Lombardi?
Drummond - Ainda agora estou gostando muito do trabalho dela na televisão.
Bem, acho que estamos no fim. O senhor quer dizer mais alguma coisa?
Drummond - Eu não. Não quero dizer nada. Você me arrancou uma porção de coisas que eu não devia dizer. Por minha iniciativa, eu não digo nada a ninguém, sabe?
"Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco."
(Poemas de Sete Faces, 1930)
Terça-feira, Abril 10, 2007
pingado 7 (jejum)
Não sei nada, a não ser o que não sei de jeito nenhum.
(Como se chama mesmo aquele poeta português?)
(Como se chama mesmo aquele poeta português?)
...
Há que encontrar conforto nalgum lugar
(um anjinho que se vai
um miserável sem água
uma impotência contrabandeada)
Perfilar tempo pra encontrar sossego
Afora isso, desespero
(um anjinho que se vai
um miserável sem água
uma impotência contrabandeada)
Perfilar tempo pra encontrar sossego
Afora isso, desespero
Sexta-feira, Março 30, 2007
Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007
Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007
Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007
Sexta-feira, Julho 28, 2006
Domingo, Julho 23, 2006
Sábado, Julho 22, 2006
Quarta-feira, Junho 07, 2006
folha de Jurema
Eu vi chover,
Eu vi relampejar.
Mas mesmo assim,
O Céu estava azul.
Samborê pemba, folha de Jurema,
Oxóssi reina de norte a sul.
Eu vi relampejar.
Mas mesmo assim,
O Céu estava azul.
Samborê pemba, folha de Jurema,
Oxóssi reina de norte a sul.
Segunda-feira, Junho 05, 2006
Miliuma Noites
- Nesse momento de sua narração, Chârazád viu aparecer a manhã, e, discreta, calou-se.
MAS...
... Quando foi na trigésima-sexta noite ela disse:
- Ó senhor meu rei, hoje não poderei contar-lhe nenhuma história. Mas por um motivo mágico. Comprei de um mercador de nuvens um presente vindo do futuro. Ele me garantiu que trata-se do melhor falador de todas as eras, de todos as línguas e dialetos, de todos os reinos próximos e distantes. E o mágico falante é especialista em realidades. Eis, meu senhor, o presente, um radinho de pilhas.
O rei tomou o radinho de Châhrazád com uma fisionomia repleta de desconfiança.
Ao perceber as dúvidas do rei, ela temeu por sua vida e apressou-se em esclarecer:
-Não há porque duvidares do que te digo, ó senhor meu rei. Podes verificar com os próprios ouvidos. Basta ligar. Já o comprei com as pilhas. Vou deixá-lo com o presente para que melhor possas desfrutá-lo.
Châhrazád calou-se e saiu de fininho dos aposentos do rei.
O poderoso rei da China então levou o pequeno aparelho para junto de sua imensa orelha e o ligou para ouvir...
- Ó senhor meu rei, hoje não poderei contar-lhe nenhuma história. Mas por um motivo mágico. Comprei de um mercador de nuvens um presente vindo do futuro. Ele me garantiu que trata-se do melhor falador de todas as eras, de todos as línguas e dialetos, de todos os reinos próximos e distantes. E o mágico falante é especialista em realidades. Eis, meu senhor, o presente, um radinho de pilhas.
O rei tomou o radinho de Châhrazád com uma fisionomia repleta de desconfiança.
Ao perceber as dúvidas do rei, ela temeu por sua vida e apressou-se em esclarecer:
-Não há porque duvidares do que te digo, ó senhor meu rei. Podes verificar com os próprios ouvidos. Basta ligar. Já o comprei com as pilhas. Vou deixá-lo com o presente para que melhor possas desfrutá-lo.
Châhrazád calou-se e saiu de fininho dos aposentos do rei.
O poderoso rei da China então levou o pequeno aparelho para junto de sua imensa orelha e o ligou para ouvir...
Domingo, Junho 04, 2006
Sábado, Junho 03, 2006
Sexta-feira, Junho 02, 2006
Projeto de Irrigaçao
Gotejamento silencioso de sensações
Um pouco mais
Um pouco menos
Coração como sarjeta
Um pouco mais
Um pouco menos
Coração como sarjeta
Quinta-feira, Junho 01, 2006
Mulata Assanhada (Ataulfo Alves)
Ai, mulata assanhada
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente
Ai, mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Essa terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar
Ai, mulata assanhada (...)
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente
Ai, mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Essa terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar
Ai, mulata assanhada (...)
6 - 10
O bar cheio. Todos observavam. Uma grande curiosidade sobre o desempenho de Jaime. Mas ele falava baixinho. Ninguém ouvia.
A moça perguntou:
- E você, o que faz?
E Jaime (com ar de intelctual):
- Sou escritor. Eu escrevo.
A demonstrar-se encantada e interessada, a moça, muito bonita por sinal, emendou:
- É mesmo? Que legal ! E você escreve o que?
Jaime (misterioso):
- Números.
E a moça (surpresa):
- Números?
Jaime:
- Sim, eu escrevo números. Escrevo sobre o acaso.
Ela passou o braço por trás da cintura de Jaime e eles saíram juntos do bar. Logo depois, ninguém entendia como o bicheiro levara a mais bela e cheirosa mulher da noite.
A moça perguntou:
- E você, o que faz?
E Jaime (com ar de intelctual):
- Sou escritor. Eu escrevo.
A demonstrar-se encantada e interessada, a moça, muito bonita por sinal, emendou:
- É mesmo? Que legal ! E você escreve o que?
Jaime (misterioso):
- Números.
E a moça (surpresa):
- Números?
Jaime:
- Sim, eu escrevo números. Escrevo sobre o acaso.
Ela passou o braço por trás da cintura de Jaime e eles saíram juntos do bar. Logo depois, ninguém entendia como o bicheiro levara a mais bela e cheirosa mulher da noite.
Cansado de Sambar (Assis Valente)
Tenho o corpo cansado de sambar noite e dia
Perguntei ao coração
Se queria descansar
Ele disse que não
Que não, que não queria
(...)
Perguntei ao coração
Se queria descansar
Ele disse que não
Que não, que não queria
(...)
Aguardar a vez.
Sobressaltos do espírito.
Para tanta inquietude, melhor fazer fila.
As senhas estão na porta da boca.
Para tanta inquietude, melhor fazer fila.
As senhas estão na porta da boca.
Terça-feira, Maio 23, 2006
Domingo, Maio 14, 2006
Quinta-feira, Janeiro 19, 2006
pingado 03
Se o pirata não roubasse o rei, a favela não saberia o que é a seda.
(frase do colaborador M.S.)
(frase do colaborador M.S.)
Sábado, Dezembro 17, 2005
Sexta-feira, Dezembro 16, 2005
pingado 02 - samba
De Serginho Poeta (da comunidade Samba da Vela).
"Dizem que a boemia atrapalha o trabalho, mas por que não dizer o contrário?"
"Dizem que a boemia atrapalha o trabalho, mas por que não dizer o contrário?"
Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Sexta-feira, Novembro 18, 2005
Notas para um perfil de Jaime (1)
Antes de tornar-se o que é, foi bancário por três vezes. Caixa. Como democrata que sempre foi, convivia com a diferença diariamente. O ovo atravessado do gerente que o diga. Ao final do dia, a fita saía da máquina já explodindo de tanto dissenso. Os números teimavam em debater as imprecisões do regime e, debatendo-se, o expediente entrava pela noite. Frise-se que, na época, a informática era apenas uma criancinha que queria ser bancária. Brincava na agência mas não tomava emprego de ninguém. Mas também não ajudava, e as diferenças transformavam os estornos no estorvo de Jaime.
Quinta-feira, Novembro 17, 2005
Do Sebanunes Bastiao
Este é do Tião Nunes! Chupado do link
http://www2.uol.com.br/capitu/19,6,2004,2440.html
Imperdível. (Pela chupança, acho que ele não vai ligar. É para a difusão do esporte por ele mesmo proposto.)
COMO MATAR UM ESCRITOR
Sebastião Nunes
de Minas Gerais, especial para o Capitu
19/6/2004 23:44:07
Há mais de 40 anos, Luiz Lôbo publicou, na antiga revista Senhor, excelentíssimas “fórmulas” para liquidar jovens escritores, antes que fosse tarde demais. O tempo passou, a revista sumiu, os escritores perderam a aura, mas as idéias me parecem válidas ainda hoje, quando o puxa-saquismo a jornalistas e corrida a prêmios tipo cágado substituíram o orgulho do texto bem escrito. Enfim, neste mundinho recheado de escritor vagabundo, em que mais vale bom contrato & retrato em revista, melhor mesmo é abortar vocações recém-nadas, como se liquidam fetos muxibentos e fedorentos. Não me lembro do texto, é lógico, mas em síntese a proposta era parecida com a dependurada aí embaixo, que reponho na roda com minhas próprias palavras. Afinal, matar escritor (ou qualquer tipo de artista) pode se tornar um novo esporte, não só interessantíssimo como bastante saudável, tanto para seus praticantes como para a sociedade em geral. Futuramente, poderá até ser incluído entre as provas olímpicas, desde que ainda exista escritor no futuro. Nessa feliz eventualidade, proponho que tão novo quanto nobre esporte seja apelidado “escritoricídio” ou até mesmo “escribicídio”. Seus praticantes serão louvados como “escritoricidas” ou “escribicidas”, lembrando os congêneres herbicidas, germicidas e até a formidável, antiqüíssima e nunca assaz valorizada formicida Tatu, que jamais exterminava as imortais formigas cabeçudas, mas era amplamente utilizada por donzelas apaixonadas e ninfetos desiludidos em seus amores proibidos. Finalmente, suplico que não venham a alcunhar o novo esporte de “sebunicídio” ou “sebastunicídio”, pois sou totalmente contrário a homenagens nominais. Prefiro bustos de bronze em praça publica, em que pombos namorem, arrulhem e satisfaçam suas necessidades mais prementes.
**********
Prólogo.
Imagine que seu filho (ou filha) cresceu com vontade de ser escritor (a). Não há sintomas, é um carinha como outro (a) qualquer. (Daqui em diante vai tudo no masculino, ou essa leréia não termina nunca).
Foi ele mesmo que certo dia, durante o café da manhã, espetando a faca na manteiga, disse: “Vou ser escritor”. Você, pai extremado, mãe amorosa, coça o queixo e reflete. Se ele, em silêncio, te espetasse a faca no peito, tudo bem. Seria um garotão normal, pois tal ato já se incorporou aos padrões comportamentais dos inclames (indivíduos de classe média). Se, ao contrário, espetasse a faca no próprio peito, nada demais. Apenas outro belo sinal dos tempos inclâmicos. Mas espetou logo na macia manteiga, a mais delicada, gordurosa e indefesa das criaturas. Você percebe que a coisa é séria, vocação mesmo, tipo aquela de padres e freiras de antigamente, que depois se arrependiam e transformavam os conventos em bordéis. Não, seu filho é diferente, quer ser escritor, e não vai se arrepender. É preciso tomar decisões, drásticas decisões. E você as toma, pai ou mãe, com rapidez, eficiência e sabedoria.
Desenvolvimento.
Primeira tentativa. Você manda o garoto treinar no Corinthians, pois seu concunhado é conselheiro nato. Claro que é treino pra inglês ver. Nada do sonho de se tornar um craque tipo Ronaldinho (o gorducho ou o dentuço, tanto faz). Ele vai mesmo é pra gandaia. Depois do “treino”, em que dá um chute e três furadas, perde um gol debaixo das traves e quase quebra a perna do zagueiro adversário, toma uma ducha fria e parte com a turma do oba-oba. E bota oba-oba nisso. Mas, inexperiente e sem camisinha, pega gonorréia e volta pra casa.
Segunda tentativa. Tratando da gonorréia, o garotão insiste em escrever. E como aids se tornou tão comum como resfriado, você o matricula numa faculdade de letras do interior, dessas em que até o motorista do ônibus fretado pra levar a moçada passa no vestibular. Uma dessas cuja principal função é fazer o aluno odiar literatura, depois de sofrer Machado, suar Euclides, vomitar Camões. Nem assim. Apesar de tudo, ele continua escrevendo e lendo, lendo e escrevendo. Já tem uns quatro contos e meia dúzia de poemas escritos. Não é por aí, você percebe depois do segundo semestre.
Terceira tentativa. Grana, grana sem limites. Pra comprar, pra torrar, pra viver a vida como uma festa permanente, tipo Wilde e seus lordes, Fitzgerald e suas ressacas, Hemingway e suas touradas. Mas não existe mais lorde, ele não gosta de beber e não sabe a diferença entre uma girafa e um touro. Prefere ler e escrever. Escrever e ler. A essa altura, já tem oito contos e uma dúzia de poemas. Entra em concurso nos Cafundós. Ganha menção honrosa.
Quarta tentativa. Você não desiste, isso de escritor não tem futuro, você está mais do que certo, eu também concordo. Então tira o garotão da faculdade de letras e matricula na faculdade de comunicação de seu tio-avô. Qual curso? Publicidade, é claro. Vai aprender como se promove sabonete, pipoca, carro japonês, óculos escuros, apartamento de luxo, tênis, iogurte, candidato a vereador, camisinha, cerveja – e escritor. Qual a diferença? Nenhuma. Tanto faz sabonete como vereador, tudo é produto, tudo se vende e tudo se compra. Vender um novo e notável escritor é a mesma coisa que vender um notável e novo detergente. Só muda o enfoque. Mas o garotão não quer saber. Já tem doze contos e dezoito poemas. Manda pra concurso em Araras e ganha medalha de bronze. Tá ficando feio.
Quinta tentativa. Ainda no primeiro semestre, você transfere o futuro aidético pro curso de jornalismo. Facílimo: foi só mudar pro andar de cima. Mas o problema – sempre tem um problema – não é exatamente o curso, mas o que fazer dentro do curso. Economia? Nem pensar! De pensar morreu um burro e economista vive tropeçando em juros e câmbio. Política nacional? Nem internacional, tudo é a mesma meleca. Em política nacional, tem de fazer o que seu rei (o editor) mandar. Na internacional, idem, ibidem. Esportes? Basta a experiência do Corinthians. Em que gaveta, espreme você os miolos moles, desovar o presunto?
É então que você descobre a América, inventa a bússola e o espaguete, bota o ovo em pé: Cultura, com “c” minúsculo. Isso! Ele vai se especializar em cultura, vai ser um varejista cultural, não, desculpe, uma varejeira cultural, também não, perdão, um editor culturalista, qualquer coisa por aí. Resolvido, e o resto é fácil: um telefonema, e ele entra logo ganhando o teto no jornal do tio-primo.
O final é feliz. Basta entupir o filhotão de orelhas de livros, encartes de cds, rilises de filmes, uma bruta salada. Mergulhado nesse pântano, ele confunde literatura com orelha de livro, música com encarte, filme com rilise. Um ano depois é promovido a editor geral e daí em diante nem orelha lê mais. Manda ler. Não vai a teatro. Manda ir. Claro que ouve música, vê filmes, degusta cantinas, tateia exposições, cheira perfumarias. Todos os sentidos estão alertas. O mundo agora está claro, embora goste tanto de Chorãozinho e Xitotó quanto de Xuxa Semgalo ou de Caenarque Butano. No fundo, bem no fundo, é tudo a mesma coisa.
Certo dia, finalmente, para coroar sua obra-prima, você o vê, com a mais pura admiração e a mais profunda ternura paterna (ou materna), espetar a faca no peito da mãe (ou do pai), deixando em paz a manteiga. Sua missão materna (ou paterna) está cumprida. O escritor está morto, mortinho da silva. E a inclamidade está salva. Na vida como na literatura.
**********
http://www2.uol.com.br/capitu/19,6,2004,2440.html
Imperdível. (Pela chupança, acho que ele não vai ligar. É para a difusão do esporte por ele mesmo proposto.)
COMO MATAR UM ESCRITOR
Sebastião Nunes
de Minas Gerais, especial para o Capitu
19/6/2004 23:44:07
Há mais de 40 anos, Luiz Lôbo publicou, na antiga revista Senhor, excelentíssimas “fórmulas” para liquidar jovens escritores, antes que fosse tarde demais. O tempo passou, a revista sumiu, os escritores perderam a aura, mas as idéias me parecem válidas ainda hoje, quando o puxa-saquismo a jornalistas e corrida a prêmios tipo cágado substituíram o orgulho do texto bem escrito. Enfim, neste mundinho recheado de escritor vagabundo, em que mais vale bom contrato & retrato em revista, melhor mesmo é abortar vocações recém-nadas, como se liquidam fetos muxibentos e fedorentos. Não me lembro do texto, é lógico, mas em síntese a proposta era parecida com a dependurada aí embaixo, que reponho na roda com minhas próprias palavras. Afinal, matar escritor (ou qualquer tipo de artista) pode se tornar um novo esporte, não só interessantíssimo como bastante saudável, tanto para seus praticantes como para a sociedade em geral. Futuramente, poderá até ser incluído entre as provas olímpicas, desde que ainda exista escritor no futuro. Nessa feliz eventualidade, proponho que tão novo quanto nobre esporte seja apelidado “escritoricídio” ou até mesmo “escribicídio”. Seus praticantes serão louvados como “escritoricidas” ou “escribicidas”, lembrando os congêneres herbicidas, germicidas e até a formidável, antiqüíssima e nunca assaz valorizada formicida Tatu, que jamais exterminava as imortais formigas cabeçudas, mas era amplamente utilizada por donzelas apaixonadas e ninfetos desiludidos em seus amores proibidos. Finalmente, suplico que não venham a alcunhar o novo esporte de “sebunicídio” ou “sebastunicídio”, pois sou totalmente contrário a homenagens nominais. Prefiro bustos de bronze em praça publica, em que pombos namorem, arrulhem e satisfaçam suas necessidades mais prementes.
**********
Prólogo.
Imagine que seu filho (ou filha) cresceu com vontade de ser escritor (a). Não há sintomas, é um carinha como outro (a) qualquer. (Daqui em diante vai tudo no masculino, ou essa leréia não termina nunca).
Foi ele mesmo que certo dia, durante o café da manhã, espetando a faca na manteiga, disse: “Vou ser escritor”. Você, pai extremado, mãe amorosa, coça o queixo e reflete. Se ele, em silêncio, te espetasse a faca no peito, tudo bem. Seria um garotão normal, pois tal ato já se incorporou aos padrões comportamentais dos inclames (indivíduos de classe média). Se, ao contrário, espetasse a faca no próprio peito, nada demais. Apenas outro belo sinal dos tempos inclâmicos. Mas espetou logo na macia manteiga, a mais delicada, gordurosa e indefesa das criaturas. Você percebe que a coisa é séria, vocação mesmo, tipo aquela de padres e freiras de antigamente, que depois se arrependiam e transformavam os conventos em bordéis. Não, seu filho é diferente, quer ser escritor, e não vai se arrepender. É preciso tomar decisões, drásticas decisões. E você as toma, pai ou mãe, com rapidez, eficiência e sabedoria.
Desenvolvimento.
Primeira tentativa. Você manda o garoto treinar no Corinthians, pois seu concunhado é conselheiro nato. Claro que é treino pra inglês ver. Nada do sonho de se tornar um craque tipo Ronaldinho (o gorducho ou o dentuço, tanto faz). Ele vai mesmo é pra gandaia. Depois do “treino”, em que dá um chute e três furadas, perde um gol debaixo das traves e quase quebra a perna do zagueiro adversário, toma uma ducha fria e parte com a turma do oba-oba. E bota oba-oba nisso. Mas, inexperiente e sem camisinha, pega gonorréia e volta pra casa.
Segunda tentativa. Tratando da gonorréia, o garotão insiste em escrever. E como aids se tornou tão comum como resfriado, você o matricula numa faculdade de letras do interior, dessas em que até o motorista do ônibus fretado pra levar a moçada passa no vestibular. Uma dessas cuja principal função é fazer o aluno odiar literatura, depois de sofrer Machado, suar Euclides, vomitar Camões. Nem assim. Apesar de tudo, ele continua escrevendo e lendo, lendo e escrevendo. Já tem uns quatro contos e meia dúzia de poemas escritos. Não é por aí, você percebe depois do segundo semestre.
Terceira tentativa. Grana, grana sem limites. Pra comprar, pra torrar, pra viver a vida como uma festa permanente, tipo Wilde e seus lordes, Fitzgerald e suas ressacas, Hemingway e suas touradas. Mas não existe mais lorde, ele não gosta de beber e não sabe a diferença entre uma girafa e um touro. Prefere ler e escrever. Escrever e ler. A essa altura, já tem oito contos e uma dúzia de poemas. Entra em concurso nos Cafundós. Ganha menção honrosa.
Quarta tentativa. Você não desiste, isso de escritor não tem futuro, você está mais do que certo, eu também concordo. Então tira o garotão da faculdade de letras e matricula na faculdade de comunicação de seu tio-avô. Qual curso? Publicidade, é claro. Vai aprender como se promove sabonete, pipoca, carro japonês, óculos escuros, apartamento de luxo, tênis, iogurte, candidato a vereador, camisinha, cerveja – e escritor. Qual a diferença? Nenhuma. Tanto faz sabonete como vereador, tudo é produto, tudo se vende e tudo se compra. Vender um novo e notável escritor é a mesma coisa que vender um notável e novo detergente. Só muda o enfoque. Mas o garotão não quer saber. Já tem doze contos e dezoito poemas. Manda pra concurso em Araras e ganha medalha de bronze. Tá ficando feio.
Quinta tentativa. Ainda no primeiro semestre, você transfere o futuro aidético pro curso de jornalismo. Facílimo: foi só mudar pro andar de cima. Mas o problema – sempre tem um problema – não é exatamente o curso, mas o que fazer dentro do curso. Economia? Nem pensar! De pensar morreu um burro e economista vive tropeçando em juros e câmbio. Política nacional? Nem internacional, tudo é a mesma meleca. Em política nacional, tem de fazer o que seu rei (o editor) mandar. Na internacional, idem, ibidem. Esportes? Basta a experiência do Corinthians. Em que gaveta, espreme você os miolos moles, desovar o presunto?
É então que você descobre a América, inventa a bússola e o espaguete, bota o ovo em pé: Cultura, com “c” minúsculo. Isso! Ele vai se especializar em cultura, vai ser um varejista cultural, não, desculpe, uma varejeira cultural, também não, perdão, um editor culturalista, qualquer coisa por aí. Resolvido, e o resto é fácil: um telefonema, e ele entra logo ganhando o teto no jornal do tio-primo.
O final é feliz. Basta entupir o filhotão de orelhas de livros, encartes de cds, rilises de filmes, uma bruta salada. Mergulhado nesse pântano, ele confunde literatura com orelha de livro, música com encarte, filme com rilise. Um ano depois é promovido a editor geral e daí em diante nem orelha lê mais. Manda ler. Não vai a teatro. Manda ir. Claro que ouve música, vê filmes, degusta cantinas, tateia exposições, cheira perfumarias. Todos os sentidos estão alertas. O mundo agora está claro, embora goste tanto de Chorãozinho e Xitotó quanto de Xuxa Semgalo ou de Caenarque Butano. No fundo, bem no fundo, é tudo a mesma coisa.
Certo dia, finalmente, para coroar sua obra-prima, você o vê, com a mais pura admiração e a mais profunda ternura paterna (ou materna), espetar a faca no peito da mãe (ou do pai), deixando em paz a manteiga. Sua missão materna (ou paterna) está cumprida. O escritor está morto, mortinho da silva. E a inclamidade está salva. Na vida como na literatura.
**********
Segunda-feira, Novembro 14, 2005
Para Regina (poema de Jaime)
MC 1º
0783 - 5,00
C 1º/5º Inv.
0783 - 5,00
P 2º
2 - 21 - 10,00
------------------
20,00
PT- Noite
14/11/2005
0783 - 5,00
C 1º/5º Inv.
0783 - 5,00
P 2º
2 - 21 - 10,00
------------------
20,00
PT- Noite
14/11/2005
Ernesto
O mínimo pela metade, o anular sem a cabeça, a outra mão cobrindo os três dedos restantes, pousados à altura do tórax. Um horizonte vermelho de rosas amontoadas, mas ligeiramente organizadas, embaçavam meus olhos ao final de dez minutos. De dez em dez, atentava ao silêncio, às vezes interrompido por sussurros. Como distração, pura distração. Não haveria graça perder tempo olhando as tochas de algodão entupindo as narinas do Ernesto. Aliás, o cheiro forte do formol incomodava o meu estômago. Sábado de manhã, duas horas para o almoço, e lá estava Ernesto, meu melhor amigo, a me enjoar.
O velório já se estendia por mais de três horas. Não agüentava mais olhar para as beiradas do caixão. Um cheiro horrível de rosas e formol, meu estômago virando pelo avesso e ainda tinha que olhar para os três irmãos. Genésio, Agenor e Nelson, sacanas voluntários. A indiferença curtida pelo álcool e pelos cifrões. Ernesto morava num quartinho nos fundos do Bar Três
Irmãos, todos os dias chegava bêbado e enquanto não caía os três irmãos não sossegavam.
“Tome mais uma”, provocavam.
Ernesto entornava mais dois ou três copos de cachaça na risca, entrava no quartinho fedido à vômito e desmaiava. Os sacanas contabilizavam: a cachaça que molhava o açougueiro engordava mais o aluguel que dele cobravam.
Os botões de rosas combinavam com o chão tingido de pó xadrez e salpicado de cal branca. Eu numa ponta do caixão, do outro lado, à direita, os três irmãos. Meu estômago não dava sossego, a minha esperança era conseguir me desmanchar naquelas nuvens de cal. Apesar do formol, de Agenor, Genésio e Nelson, e mais o amigo defunto, não saía. Queria vê-la: Izaura, a caixeira do açougue de Ernesto, uma mulher incomparável. Cabelos e unhas feitas em vermelho.
O velório foi num barracão de três cômodos, o banheiro era nos fundos, ao lado da cozinha. Lugarzinho quente e fedido, mas tive uma sensação agradável. Enquanto mijava, esquecia o cheiro de formol, ficava longe dos três irmãos, e havia a expectativa de encontrar Izaura ao sair do banheiro.
Como, às vezes, vale a pena dizer o feito, andei lento até o meu lugar, com vista para o horizonte de rosas vermelhas, ao pé do caixão. Aproximava minha barriga da beirada quando olhei em direção à porta. Fui esfaqueado pelo sexo de rubras tonalidades. Minhas lembranças sentiram as horas que eu deslisava no açougue a admirá-la. Era Ela, caixeira de olhos claros, cabelos ruivos e seios pontudos. Ansiei ouvir sua voz.
Izaura veio caminhando em direção ao caixão, de cabeça baixa. O cheiro de formol realçou com o calor. Ela levantou o rosto, assistiu à cena das carnes brancas de Ernesto e não agüentou. Lançou sobre mim, sem a menor cerimônia. Os Três irmãos sorriram, Ela golfou mais uma vez, o Ernesto impassível. O mínimo pela metade, o anular sem a cabeça, a outra mão cobrindo os três dedos restantes.
O velório já se estendia por mais de três horas. Não agüentava mais olhar para as beiradas do caixão. Um cheiro horrível de rosas e formol, meu estômago virando pelo avesso e ainda tinha que olhar para os três irmãos. Genésio, Agenor e Nelson, sacanas voluntários. A indiferença curtida pelo álcool e pelos cifrões. Ernesto morava num quartinho nos fundos do Bar Três
Irmãos, todos os dias chegava bêbado e enquanto não caía os três irmãos não sossegavam.
“Tome mais uma”, provocavam.
Ernesto entornava mais dois ou três copos de cachaça na risca, entrava no quartinho fedido à vômito e desmaiava. Os sacanas contabilizavam: a cachaça que molhava o açougueiro engordava mais o aluguel que dele cobravam.
Os botões de rosas combinavam com o chão tingido de pó xadrez e salpicado de cal branca. Eu numa ponta do caixão, do outro lado, à direita, os três irmãos. Meu estômago não dava sossego, a minha esperança era conseguir me desmanchar naquelas nuvens de cal. Apesar do formol, de Agenor, Genésio e Nelson, e mais o amigo defunto, não saía. Queria vê-la: Izaura, a caixeira do açougue de Ernesto, uma mulher incomparável. Cabelos e unhas feitas em vermelho.
O velório foi num barracão de três cômodos, o banheiro era nos fundos, ao lado da cozinha. Lugarzinho quente e fedido, mas tive uma sensação agradável. Enquanto mijava, esquecia o cheiro de formol, ficava longe dos três irmãos, e havia a expectativa de encontrar Izaura ao sair do banheiro.
Como, às vezes, vale a pena dizer o feito, andei lento até o meu lugar, com vista para o horizonte de rosas vermelhas, ao pé do caixão. Aproximava minha barriga da beirada quando olhei em direção à porta. Fui esfaqueado pelo sexo de rubras tonalidades. Minhas lembranças sentiram as horas que eu deslisava no açougue a admirá-la. Era Ela, caixeira de olhos claros, cabelos ruivos e seios pontudos. Ansiei ouvir sua voz.
Izaura veio caminhando em direção ao caixão, de cabeça baixa. O cheiro de formol realçou com o calor. Ela levantou o rosto, assistiu à cena das carnes brancas de Ernesto e não agüentou. Lançou sobre mim, sem a menor cerimônia. Os Três irmãos sorriram, Ela golfou mais uma vez, o Ernesto impassível. O mínimo pela metade, o anular sem a cabeça, a outra mão cobrindo os três dedos restantes.
Morno
Antes de aprender a profissão com o pai, não chegava perto, tinha muito medo que espirrasse pó de pedra nos olhos. A cegueira sempre assustou.
“Vou mexer com ouro. Não quero saber de diamantes, berilos, lapidação, essas coisas... Quero ver o mundo refletir no meu trabalho, quero olhar o lustrado e saber o que passa, comandar o passo. O senhor meu pai ficou a vida inteira curvado na frente desse torno, raspando pedra e não viu a metade do que devia.”
Lixa, lima, torno. Cá eu raspando pedra. Dizem que a cidade é um colosso. Não sei de nada, não vi. Cerrei os olhos para não cegar, mão firme, aresta, aresta, aresta, aresta: água para não queimar. Morno.
“Vou mexer com ouro. Não quero saber de diamantes, berilos, lapidação, essas coisas... Quero ver o mundo refletir no meu trabalho, quero olhar o lustrado e saber o que passa, comandar o passo. O senhor meu pai ficou a vida inteira curvado na frente desse torno, raspando pedra e não viu a metade do que devia.”
Lixa, lima, torno. Cá eu raspando pedra. Dizem que a cidade é um colosso. Não sei de nada, não vi. Cerrei os olhos para não cegar, mão firme, aresta, aresta, aresta, aresta: água para não queimar. Morno.
Domingo, Outubro 09, 2005
Regina - Capitulo 3
Joana lia sentada numa poltrona no canto da sala. Às vezes, fica até tarde da noite lendo, desde criança cultiva o gosto pelas letras. Admirava uma tia que morara na França, uma senhora apaixonada por poesia, que sempre andava com um livro debaixo do braço. Vez ou outra, declamava um poema para alguém. Se não houvesse ninguém, declamava assim mesmo.
A rápida lembrança da tia a distraiu da leitura, misturou as letras, fundiu-as em imagens. Parou o olhar num tapete de couro de vaca no centro da sala. Descansava os olhos no pêlo malhado, buscava lembranças, tentava alguma coisa que a tirasse da tristeza. Ao contrário, pensava no marido, um grosso que a tratava mal, sem o menor tato, via a mulher como um animal qualquer feito para satisfazê-lo.
Joãozinho entra na sala correndo e pára em frete ao tapete. Ela se assusta e logo depois relaxa quando vê que é o seu filho. O marido entra logo depois e pára atrás do garoto, os dois a olham. João Ribeiro sai da sala, o garoto segue o pai. Joana olha para um quadro pendurado na parede do fundo, uma fotografia em que está vestida de noiva, linda, com quinze anos.
Retoma a leitura:
“O ódio é como o tonel das Danaides tão frias;
A Vingança, perdida, o braço rubro e forte,
Por mais que jogue em suas trevas tão vazias
Baldes cheios do sangue e do pranto da morte,
Diabo no tonel faz furos ignorados,
Por onde fogem mil anos de suor e zelos,
Embora ela reanime os seus assassinados,
fazendo-os reviver mas só para espremê-los.
O Ódio é um ébrio a dormir ao fundo da taverna,
Que sempre tem a sêde a nascer do licor
Sempre a multiplicar-se e como a hidra de Lerna.
_Porém o ébrio feliz sabe o seu vencedor,
E o ódio é votado sempre a esta amarga certeza
De não poder jamais deitar-se sob a mesa.”
C.Baudelaire (O TONEL DO ÓDIO, de As Flores do Mal)
A rápida lembrança da tia a distraiu da leitura, misturou as letras, fundiu-as em imagens. Parou o olhar num tapete de couro de vaca no centro da sala. Descansava os olhos no pêlo malhado, buscava lembranças, tentava alguma coisa que a tirasse da tristeza. Ao contrário, pensava no marido, um grosso que a tratava mal, sem o menor tato, via a mulher como um animal qualquer feito para satisfazê-lo.
Joãozinho entra na sala correndo e pára em frete ao tapete. Ela se assusta e logo depois relaxa quando vê que é o seu filho. O marido entra logo depois e pára atrás do garoto, os dois a olham. João Ribeiro sai da sala, o garoto segue o pai. Joana olha para um quadro pendurado na parede do fundo, uma fotografia em que está vestida de noiva, linda, com quinze anos.
Retoma a leitura:
“O ódio é como o tonel das Danaides tão frias;
A Vingança, perdida, o braço rubro e forte,
Por mais que jogue em suas trevas tão vazias
Baldes cheios do sangue e do pranto da morte,
Diabo no tonel faz furos ignorados,
Por onde fogem mil anos de suor e zelos,
Embora ela reanime os seus assassinados,
fazendo-os reviver mas só para espremê-los.
O Ódio é um ébrio a dormir ao fundo da taverna,
Que sempre tem a sêde a nascer do licor
Sempre a multiplicar-se e como a hidra de Lerna.
_Porém o ébrio feliz sabe o seu vencedor,
E o ódio é votado sempre a esta amarga certeza
De não poder jamais deitar-se sob a mesa.”
C.Baudelaire (O TONEL DO ÓDIO, de As Flores do Mal)
Sexta-feira, Setembro 23, 2005
HIV ou Onibus
“Meia cinta para fora, a sobrar na calça frouxa, uns olhos esquisitos, meio avermelhados.
_ Com licença.
“Sentou-se incomodado, à direita. Entreolhei. Dois minutos, não mais. Virou seus olhos esquisitos, meio avermelhados, em minha direção e disse qualquer coisa:
_ Olhe rapaz, não se desanime. São vinte quilos perdidos e uma tristeza enorme. Nem por isso acredito estar morrendo. O peso é recuperável. A tristeza? ... A memória se encarrega.
_ Com licença.
“Sentou-se incomodado, à direita. Entreolhei. Dois minutos, não mais. Virou seus olhos esquisitos, meio avermelhados, em minha direção e disse qualquer coisa:
_ Olhe rapaz, não se desanime. São vinte quilos perdidos e uma tristeza enorme. Nem por isso acredito estar morrendo. O peso é recuperável. A tristeza? ... A memória se encarrega.
Quinta-feira, Setembro 22, 2005
Terça-feira, Setembro 20, 2005
Vocabulario Assim, Assim
Assim. (do lat. ad + sic, atr. do ar. assim) Adv. 1. Deste ou desse ou daquele modo. 2. Do mesmo modo; igualmente. 3. Indica tamanho, quantidade, etc., exprimindo-se, na fala, o tamanho com um gesto característico da mão espalmada em plano horizontal, e a quantidade com os dedos apinhados. * Conj. 4.Deste modo; destarte; portanto. * Assim, assim. Bras. Mais ou menos; nem bem nem mal; sofrivelmente.
(Dic. Aurélio)
(Dic. Aurélio)
Domingo, Setembro 18, 2005
Regina - Capitulo 2
Na sede da fazenda, João acerta com os peões e dá as últimas ordens ao capataz.
_ Tem que apressar a colheita que já tem mexerica estragando no pé.
João Pedro, seu único filho, de onze anos, não desgruda do pai. Vai do curral ao pasto, da ordenha ao acerto com os empregados, aonde quer que o pai vá, Joãozinho tenta acompanhá-lo.
Na cidade, Levi aguarda, ansioso, a chegada de João. Ele sai do bar, caminha até o carro, vê as horas no relógio da igreja: sete e quinze.
Ao entrar na cidade, João recebe cumprimentos a cada esquina em que passa, a maioria de pessoas humildes. Quando chega à praça, Levi mal espera o carro parar e caminha em sua direção. Tem a fisionomia de quem está preocupado. O garoto percebe. Eles entram no bar em silêncio.
Levi oferece um guaraná ao menino e lhe compra algumas fichas de fliperama. João Ribeiro, curioso para saber o que Levi tem a lhe falar, senta-se a uma mesa no canto.
_ A situação tá complicando para o lado do Capanema. A justiça está apertando. E olha que ele tem um advogado quente.
_ Ele tá preso? _ João pergunta com um ar soberano e olha o amigo a espera de uma resposta que julga já saber.
_ Por enquanto, não. O negócio tá tomando um rumo que você nem pode imaginar. Ele ainda não foi preso porque tá alegando problema de saúde. Mas a justiça tá na cola. Vão acabar pegando ele.
Os dois ficam algum tempo em silêncio, meio sem saber o que fazer
_ A mãe tá quase topando _ Levi retoma a palavra, meio inseguro. Acho que não é uma boa hora... Mas você é quem sabe.
_ Vamos fazer o seguinte _ diz João _ vai lá e fecha com a dona. Se a coisa começar a pegar, a gente dá um tempo.
_ O negócio não é bem assim. Tá nos jornais. O caso do Capanema não é o único, tem um monte pipocando, parece que tem uma CPI na Assembléia Legislativa só pra investigar isso _ Levi pára de falar e olha para João, como que esperando uma decisão, e retoma. Mas você é que sabe. Eu marquei com a dona às oito.
_ Ahh, vai lá. Foda-se.
_ Tem que apressar a colheita que já tem mexerica estragando no pé.
João Pedro, seu único filho, de onze anos, não desgruda do pai. Vai do curral ao pasto, da ordenha ao acerto com os empregados, aonde quer que o pai vá, Joãozinho tenta acompanhá-lo.
Na cidade, Levi aguarda, ansioso, a chegada de João. Ele sai do bar, caminha até o carro, vê as horas no relógio da igreja: sete e quinze.
Ao entrar na cidade, João recebe cumprimentos a cada esquina em que passa, a maioria de pessoas humildes. Quando chega à praça, Levi mal espera o carro parar e caminha em sua direção. Tem a fisionomia de quem está preocupado. O garoto percebe. Eles entram no bar em silêncio.
Levi oferece um guaraná ao menino e lhe compra algumas fichas de fliperama. João Ribeiro, curioso para saber o que Levi tem a lhe falar, senta-se a uma mesa no canto.
_ A situação tá complicando para o lado do Capanema. A justiça está apertando. E olha que ele tem um advogado quente.
_ Ele tá preso? _ João pergunta com um ar soberano e olha o amigo a espera de uma resposta que julga já saber.
_ Por enquanto, não. O negócio tá tomando um rumo que você nem pode imaginar. Ele ainda não foi preso porque tá alegando problema de saúde. Mas a justiça tá na cola. Vão acabar pegando ele.
Os dois ficam algum tempo em silêncio, meio sem saber o que fazer
_ A mãe tá quase topando _ Levi retoma a palavra, meio inseguro. Acho que não é uma boa hora... Mas você é quem sabe.
_ Vamos fazer o seguinte _ diz João _ vai lá e fecha com a dona. Se a coisa começar a pegar, a gente dá um tempo.
_ O negócio não é bem assim. Tá nos jornais. O caso do Capanema não é o único, tem um monte pipocando, parece que tem uma CPI na Assembléia Legislativa só pra investigar isso _ Levi pára de falar e olha para João, como que esperando uma decisão, e retoma. Mas você é que sabe. Eu marquei com a dona às oito.
_ Ahh, vai lá. Foda-se.
Sexta-feira, Setembro 16, 2005
Quarta-feira, Setembro 14, 2005
Regina - capitulo 1
Estela aproxima-se de Regina e a observa no trato com
as vasilhas. A garota usa um vestido estampado de
flores pequenas, amareladas, de malha surrada e o
encharca da barriga ao resto do corpo. Com doze anos,
dá mostras que será uma mulher encorpada, farta,
bonita. Seu cabelo louro mal tratado enverga e estica
em várias direções a parecer uma bucha madura. Estela
se encanta com um pequeno chumaço despontado acima da
cabeça. O amarelo iluminado pelo sol balança de um
lado a outro enquanto a menina movimenta seu corpo num
esforço para limpar a rapa de angu da panela.
_ O que foi mãe? Pergunta Regina, sem virar-se para a
mãe.
_ Nada, só tô olhando como cê já tá uma moçona.
A mãe deixa a menina com suas obrigações e vai
sentar-se no banco de madeira à porta de casa. O sol
quente começa a baixar, o fim da tarde aumenta seu
desespero. Seu Levi marcou de chegar às oito horas
para saber a resposta. O silêncio lhe dá lágrimas.
Antes de seu marido morrer, a janta estava quase
pronta nesta hora. Faz cinco anos que ele se foi, hoje
ela faz o almoço tarde para não comer à noite,
economiza para o outro dia. Com o dinheiro que seu
Levi ofereceu dá para comer bem, pelo menos seis
meses. Não é tudo, mas diminui o sofrimento. Dela e da
filha.
A menina acabou de lavar a pia e veio sentar-se junto
à mãe. Ela parecia triste e estava muito esquisita
desde que o homem gordo, de chapéu largo, a procurou
na semana passada. Sua mãe sempre sentava no banco e
passava tempo a lembrar do marido, às vezes chorava.
Mas nos últimos dias, sua tristeza era estranha.
Ficava em silêncio, durante horas. De vez em quando
resmungava alguma coisa e começava a chorar.
O sol escondeu atrás do morro, Estela entrou para
casa e acendeu a lamparina. Regina ficou do lado de
fora, deitada no banco, olhando o vazio.
as vasilhas. A garota usa um vestido estampado de
flores pequenas, amareladas, de malha surrada e o
encharca da barriga ao resto do corpo. Com doze anos,
dá mostras que será uma mulher encorpada, farta,
bonita. Seu cabelo louro mal tratado enverga e estica
em várias direções a parecer uma bucha madura. Estela
se encanta com um pequeno chumaço despontado acima da
cabeça. O amarelo iluminado pelo sol balança de um
lado a outro enquanto a menina movimenta seu corpo num
esforço para limpar a rapa de angu da panela.
_ O que foi mãe? Pergunta Regina, sem virar-se para a
mãe.
_ Nada, só tô olhando como cê já tá uma moçona.
A mãe deixa a menina com suas obrigações e vai
sentar-se no banco de madeira à porta de casa. O sol
quente começa a baixar, o fim da tarde aumenta seu
desespero. Seu Levi marcou de chegar às oito horas
para saber a resposta. O silêncio lhe dá lágrimas.
Antes de seu marido morrer, a janta estava quase
pronta nesta hora. Faz cinco anos que ele se foi, hoje
ela faz o almoço tarde para não comer à noite,
economiza para o outro dia. Com o dinheiro que seu
Levi ofereceu dá para comer bem, pelo menos seis
meses. Não é tudo, mas diminui o sofrimento. Dela e da
filha.
A menina acabou de lavar a pia e veio sentar-se junto
à mãe. Ela parecia triste e estava muito esquisita
desde que o homem gordo, de chapéu largo, a procurou
na semana passada. Sua mãe sempre sentava no banco e
passava tempo a lembrar do marido, às vezes chorava.
Mas nos últimos dias, sua tristeza era estranha.
Ficava em silêncio, durante horas. De vez em quando
resmungava alguma coisa e começava a chorar.
O sol escondeu atrás do morro, Estela entrou para
casa e acendeu a lamparina. Regina ficou do lado de
fora, deitada no banco, olhando o vazio.
Terça-feira, Setembro 06, 2005
Sábado, Setembro 03, 2005
Devo uma defesa.
É verdade.
Mas assim...
Defesa não é.
Carece de mais.
Mais um pouco.
Devo.
Devo ainda.
Sou, mas quem esperar...
Devo.
É verdade.
Mas assim...
Defesa não é.
Carece de mais.
Mais um pouco.
Devo.
Devo ainda.
Sou, mas quem esperar...
Devo.
Melodia na vitrola.
Bêbado é assim.
Acha que pode.
Não pode.
Boemia é coisa ruim.
Boa, na essência.
Digo.
Mas ruim.
O dia vira.
A noite acaba.
Boemia onde está?
(...) Continuo.
Acha que pode.
Não pode.
Boemia é coisa ruim.
Boa, na essência.
Digo.
Mas ruim.
O dia vira.
A noite acaba.
Boemia onde está?
(...) Continuo.
(lembrança do sujinho)
Noite
Carlos Drummond de Andrade
Há tantas coisas germinando na noite, que nem sei como enumerá-las. À noite nascem as revoluções tanto as que vão triunfar como as que só se realizam em pensamento, e são quase todas. Os revolucionários viram-se, inquietos, na cama. E também os que se converterão, pela manhã, a religiões novas. E os amorosos. Análises emocionais levadas ao extremo da tortura arrastam-se pela horas lentas da noite. Como a noite é rica! A noite é o tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos.
Demétrio quis prolongar a noite obturando todas as frestas do quarto, para que não entrasse a luz. Luz não entrou. Demétrio gozou da noite plena, continuada, e todos os pensamentos lhe floresciam. Construiu sistemas filosóficos. A escuridão era propícia a teorias políticas. Nenhum crítico foi mais perspicaz do que Demétrio, na literatura e nas artes. Aquela noite era fantástica. Demétrio quis experimentar as sensações de horror, êxtase, humilhação, glória, poder e morte. Morreu, mesmo no escuro. Tendo sentido a morte em seu interior físico, não pôde mais tirá-la de si. É o único morto, conscientemente morto, de que já ouvi falar nesta vida. A noite é fantástica.
Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1240.
Carlos Drummond de Andrade
Há tantas coisas germinando na noite, que nem sei como enumerá-las. À noite nascem as revoluções tanto as que vão triunfar como as que só se realizam em pensamento, e são quase todas. Os revolucionários viram-se, inquietos, na cama. E também os que se converterão, pela manhã, a religiões novas. E os amorosos. Análises emocionais levadas ao extremo da tortura arrastam-se pela horas lentas da noite. Como a noite é rica! A noite é o tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos.
Demétrio quis prolongar a noite obturando todas as frestas do quarto, para que não entrasse a luz. Luz não entrou. Demétrio gozou da noite plena, continuada, e todos os pensamentos lhe floresciam. Construiu sistemas filosóficos. A escuridão era propícia a teorias políticas. Nenhum crítico foi mais perspicaz do que Demétrio, na literatura e nas artes. Aquela noite era fantástica. Demétrio quis experimentar as sensações de horror, êxtase, humilhação, glória, poder e morte. Morreu, mesmo no escuro. Tendo sentido a morte em seu interior físico, não pôde mais tirá-la de si. É o único morto, conscientemente morto, de que já ouvi falar nesta vida. A noite é fantástica.
Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1240.
Sexta-feira, Setembro 02, 2005
Tira o cipó do caminho, oi criança
Deixa a vovó atravessar
Tira o cipó do caminho, oi criança
Deixa a vovó atravessar
Eles vem chegando
São os preto velhos que vem trabalhar
Eles vem chegando
São os preto velhos que vem trabalhar
Deixa a vovó atravessar
Tira o cipó do caminho, oi criança
Deixa a vovó atravessar
Eles vem chegando
São os preto velhos que vem trabalhar
Eles vem chegando
São os preto velhos que vem trabalhar
Ia uê ererê aiô gombê
Com licença do curiandamba,
com licença do curiacuca.
com licença do sinhô moço,
com licença do dono da tera.
Com licença do curiandamba,
com licença do curiacuca.
com licença do sinhô moço,
com licença do dono da tera.
Quinta-feira, Setembro 01, 2005
lulu, andas de camisa suja
Cotidiano. Dia de trabalho normal. Preguiça. Três, quatro, cinco, seis da tarde e o esperado fim de expediente.
Na volta pra casa, um chope no Café Do Sebo. Hora de relaxar, trastejar, sentar numa das cadeiras espalhadas pela calçada e entregar à flânerie as intenções de todo tudo. Sem qualquer intento, obviamente.
Apressada, Lulu lança em minha mesa o copo e já vai-se a atender um outro cliente. De livros. Intelectual gastador, cheio de tiques e índole aristocrática. E louco por Lulu. Creio que investiu boa parte da herança do embaixador em livros velhos. Freqüência garantida nas prateleiras do Sebo, a olhar filosofia e ansiar pela atenção da moça.
O que de certo não exorbita em nada. Pelo menos 80% dos clientes do Sebo não têm o menor traquejo aristocrático, mas compartilham o mesmo desejo do filho do embaixador.
Os olhos de Lulu são minha maior diversão. Enquanto delicio pequenos, às vezes grandes, goles de cerveja, chego a dedicar três quartos sucessivos de hora a observar o jeito que olha seus “clientes”. O charme e a discrição com que seduz e troça apenas ao olhar os babões, poetas iniciados, iniciantes e tarados de toda espécie me rendem dezenas de historietas, gargalhadas e até mesmo infames idéias ou... Todas à conta da flânerie, nada mais.
O que nunca esperava, o que não pensava, mas no fundo temia, era que eu próprio pudesse protagonizar uma das situações em que a Linda garotinha de olhos verdes zomba seu interlocutor. Platonismo, coração vagabundo, um romântico equivocado, cético, desiludido, apaixonado ou mesmo onanista, os motivos do meu observar multiplicam-se em experiências diversas. E Lulu era conhecida já de algum tempo, ao menos imagem. Entreguei-me às delícias do que considerava – pela experiência de um escolado observador do Café do Sebo – como um grave deslize.
Mas, não por acaso. Ao contrário dos outros funcionários do Café do Sebo, Lulu é de pouca conversa, leu os livros que indica, está sempre basicamente elegante e não usa o avental uniforme. (Nunca me perguntei o motivo de ela se vestir
diferente dos outros.)
Numa pausa para atentar às objetividades da boemia, por Obrigação, em certa medida, percebi que meu copo estava
vazio. Acenei à Lulu com a tulipa erguida. Ela tirou o chope pessoalmente, desviou de algumas prateleiras, do filho do embaixador e aproximou-se da minha mesa, na calçada.
Com os olhos verdes apontados para os meus desde o balcão, com a bandeja equilibrada na mão esquerda e um
pequeno pano na mão direita, ela arredou a cadeira como se fosse sentar-se ao meu lado e curvou-se para limpar a mesa. Para meu hipnótico espanto, ela ofereceu-me à vista seus seios maravilhosos durante todo o tempo em que passava o pano úmido. E para não deixar dúvidas da consciência de suas intenções, ao terminar a operação de limpeza, Lulu me atirou um
sorrisinho, creio um tanto safado, e desviou o olhar para sua camisa. Mesmo amalucado, percebi que me mostrava uma minúscula manchinha preta à altura de seu peito.
Lulu quase me matou de susto ao lançar o copo em cima da mesa e... foi-se assistir seu aristocrático cliente. Antes, deixou no balcão a bandeja e vestiu-se com o avental uniforme. O babão, digo filho do embaixador, apressou-se em pagar seus livros, filosofia e mais outras leituras abstratas.
Ao sair, olhou-me com fúria, passou por mim e já quase na esquina, tomado de apoplexia, desandou a berrar: Imbecil!Imbecil!
Na volta pra casa, um chope no Café Do Sebo. Hora de relaxar, trastejar, sentar numa das cadeiras espalhadas pela calçada e entregar à flânerie as intenções de todo tudo. Sem qualquer intento, obviamente.
Apressada, Lulu lança em minha mesa o copo e já vai-se a atender um outro cliente. De livros. Intelectual gastador, cheio de tiques e índole aristocrática. E louco por Lulu. Creio que investiu boa parte da herança do embaixador em livros velhos. Freqüência garantida nas prateleiras do Sebo, a olhar filosofia e ansiar pela atenção da moça.
O que de certo não exorbita em nada. Pelo menos 80% dos clientes do Sebo não têm o menor traquejo aristocrático, mas compartilham o mesmo desejo do filho do embaixador.
Os olhos de Lulu são minha maior diversão. Enquanto delicio pequenos, às vezes grandes, goles de cerveja, chego a dedicar três quartos sucessivos de hora a observar o jeito que olha seus “clientes”. O charme e a discrição com que seduz e troça apenas ao olhar os babões, poetas iniciados, iniciantes e tarados de toda espécie me rendem dezenas de historietas, gargalhadas e até mesmo infames idéias ou... Todas à conta da flânerie, nada mais.
O que nunca esperava, o que não pensava, mas no fundo temia, era que eu próprio pudesse protagonizar uma das situações em que a Linda garotinha de olhos verdes zomba seu interlocutor. Platonismo, coração vagabundo, um romântico equivocado, cético, desiludido, apaixonado ou mesmo onanista, os motivos do meu observar multiplicam-se em experiências diversas. E Lulu era conhecida já de algum tempo, ao menos imagem. Entreguei-me às delícias do que considerava – pela experiência de um escolado observador do Café do Sebo – como um grave deslize.
Mas, não por acaso. Ao contrário dos outros funcionários do Café do Sebo, Lulu é de pouca conversa, leu os livros que indica, está sempre basicamente elegante e não usa o avental uniforme. (Nunca me perguntei o motivo de ela se vestir
diferente dos outros.)
Numa pausa para atentar às objetividades da boemia, por Obrigação, em certa medida, percebi que meu copo estava
vazio. Acenei à Lulu com a tulipa erguida. Ela tirou o chope pessoalmente, desviou de algumas prateleiras, do filho do embaixador e aproximou-se da minha mesa, na calçada.
Com os olhos verdes apontados para os meus desde o balcão, com a bandeja equilibrada na mão esquerda e um
pequeno pano na mão direita, ela arredou a cadeira como se fosse sentar-se ao meu lado e curvou-se para limpar a mesa. Para meu hipnótico espanto, ela ofereceu-me à vista seus seios maravilhosos durante todo o tempo em que passava o pano úmido. E para não deixar dúvidas da consciência de suas intenções, ao terminar a operação de limpeza, Lulu me atirou um
sorrisinho, creio um tanto safado, e desviou o olhar para sua camisa. Mesmo amalucado, percebi que me mostrava uma minúscula manchinha preta à altura de seu peito.
Lulu quase me matou de susto ao lançar o copo em cima da mesa e... foi-se assistir seu aristocrático cliente. Antes, deixou no balcão a bandeja e vestiu-se com o avental uniforme. O babão, digo filho do embaixador, apressou-se em pagar seus livros, filosofia e mais outras leituras abstratas.
Ao sair, olhou-me com fúria, passou por mim e já quase na esquina, tomado de apoplexia, desandou a berrar: Imbecil!Imbecil!
o suborno
Prometo tudo mais o quanto for, meu Deus. Dei-lhe o que tinha e o que não tinha. Comprei rifas, dei dízimo, sou a própria caridade.
Mas me importa agora o “se”, exclusivamente o “se”.
"Se” nada me acontecer, sigo a colaborar: dízimo, rifas, bingo. Dou-lhe tudo o que quizer, meu Deus.
Mas me importa agora o “se”, exclusivamente o “se”.
"Se” nada me acontecer, sigo a colaborar: dízimo, rifas, bingo. Dou-lhe tudo o que quizer, meu Deus.
as ventas
Pés descalços no piso úmido, grama japonesa, a respirar pelas ventas arreganhadas. Tudo o que pensava não era mais que finanças, não enxergava um nada, tremia, suava. O filho em pé, ao lado.
_ Papai, posso pedir um guaraná?
Foi o mesmo que falar com uma batata.
_ Papai. Posso? Sem resposta, o menino foi direto à barraca.
_ Por favor, um guaraná. Na conta do meu pai – falou ao balconista apontando para o jardim.
_ Não tem ninguém lá _ respondeu o balconista. Dou o refrigerante se alguém pagar. Infelizmente, eu não tenho nenhum tostão.
_ Deixa pra lá _ disse o menino _ eu não preciso do seu dinheiro. E saiu atrás do pai.
Duas horas mais tarde, avistou-o noutro gramado. Pés descalços no piso úmido, grama japonesa, a respirar pelas ventas arreganhadas. Cego em dívidas.
_ Papai, por que foi embora? Estou com sede. Prometeu não fugir mais.
_ Papai, posso pedir um guaraná?
Foi o mesmo que falar com uma batata.
_ Papai. Posso? Sem resposta, o menino foi direto à barraca.
_ Por favor, um guaraná. Na conta do meu pai – falou ao balconista apontando para o jardim.
_ Não tem ninguém lá _ respondeu o balconista. Dou o refrigerante se alguém pagar. Infelizmente, eu não tenho nenhum tostão.
_ Deixa pra lá _ disse o menino _ eu não preciso do seu dinheiro. E saiu atrás do pai.
Duas horas mais tarde, avistou-o noutro gramado. Pés descalços no piso úmido, grama japonesa, a respirar pelas ventas arreganhadas. Cego em dívidas.
_ Papai, por que foi embora? Estou com sede. Prometeu não fugir mais.
O torno
Um colchão macio, o travesseiro de espuma, ventilador para suavizar o cheiro forte do incenso de umbanda. Marli estava deitada de bruços, com os pés para cima e, apoiada nos cotovelos, fazia palavras cruzadas. Anos e mais anos no hotel Olimpo. Às vezes saía, dava um tempo, ia fazer outras coisas. Mas voltava.
Os vultos são a essência e a arte do seu trabalho. Todo o segredo, que muitas profissionais da zona não se dão conta, está em saber discernir o que é vulto e o que é cliente.
À essa destreza, Marli acrescentava um requintado toque de intelectualidade. Mas não por charme, pela necessidade de conseguir terminar suas palavras cruzadas no quarto em penumbra. Os óculos de aros finos na ponta do nariz ajudam a enxergar as letras miúdas e a perceber os vultos e clientes.
O corredor iluminado, o quarto em penumbra. De dentro pra fora, vê-se apenas vultos passando rápido. Um vulto, outro vulto. E passam incessantes, o dia inteiro, desde cedo, muito cedo. Um vulto, outro vulto e outro vulto. Parou. Pode ser um cliente.
Saudação informal, três letras.
“Olá”
Marli termina a última letra, risca o acento e olha por cima dos óculos. Nada. Fora um vulto mais demorado. Retoma suas palavras cruzadas. Um vulto, outro vulto, outro e outro vulto mais .
Um vulto e outro vulto. Parou.
“Dinheiro em inglês”, cinco letras.
_ Quanto é?
_ O quê? Pergunta Marli, enquanto tenta lembrar a palavra.
_ Quanto é o programa?
_ Chupadinha, camisinha e três posições: cinco reais. Responde olhando nos olhos do cliente.
Ele entra calado. Segue o olhar até as coxas grossas e lisas de Marli. Ela fecha a revista de palavras cruzadas, tira os óculos, levanta e fecha a porta. O cara senta na beirada da cama e começa a tirar a roupa, ainda calado.
Marli pega seus apetrechos: um rolo de papel toalha, uma camisinha e o tubo de lubrificante. Tira o sapato de salto alto, a meia-calça e a calcinha. O cliente fica meio decepcionado com o que vê.
_ Pode deitar aí. Diz, quase ríspida.
O sujeito deita-se, olha para o monte flácido e pergunta sem graça: _ Como é seu nome?
_ Regina. Qual posição? Ela fala rápido e embrenha nos grandes lábios o dedo com lubrificante.
_ O quê?
_ Qual posição? Ela repete, com a camisinha quase toda colocada no rapaz.
A olhar o próprio pau empacotado pela camisinha vagabunda, o cliente pergunta outra vez: _ Como é que você se chama?
_ Regina. Responde Marli, antes de abocanhar o cacete. Ela chupa alguns minutos, pára e pergunta: _ Qual a posição?
O cliente, mais parecido com um vulto de olhos arregalados e boca semi aberta, demora a responder. Ela, muito profissional, não se irrita: _ Qual posição?
_ Você por cima, no torno. Finalmente ele responde, de olhos mais arregalados.
Marli trepa no sujeito, ajeita o torno e põe-se a rebolar. A cama range um pouco, o ventilador assopra o incenso forte.
_ Já gozei. Pode parar.
Tudo pronto, roupas vestidas, o cliente enfia a mão no bolso.
_ Tem certeza que não vai querer as outras duas posições?
_ Não.
_ Tem gente que acha pouco três e você quis só uma - ela insiste.
_ Não, obrigado. Tome os seus cinco reais.
O cara paga, abre a porta e sai. O corredor iluminado. O quarto em penumbra.
Um vulto, outro vulto, outro vulto e outro vulto. Marli senta-se na cama e abre novamente suas palavras cruzadas. Um vulto, outro e outro vulto. Parou.
_ Lembrei! Money!!!!! Ela exclama sem olhar a porta.
_ Quanto é?
Os vultos são a essência e a arte do seu trabalho. Todo o segredo, que muitas profissionais da zona não se dão conta, está em saber discernir o que é vulto e o que é cliente.
À essa destreza, Marli acrescentava um requintado toque de intelectualidade. Mas não por charme, pela necessidade de conseguir terminar suas palavras cruzadas no quarto em penumbra. Os óculos de aros finos na ponta do nariz ajudam a enxergar as letras miúdas e a perceber os vultos e clientes.
O corredor iluminado, o quarto em penumbra. De dentro pra fora, vê-se apenas vultos passando rápido. Um vulto, outro vulto. E passam incessantes, o dia inteiro, desde cedo, muito cedo. Um vulto, outro vulto e outro vulto. Parou. Pode ser um cliente.
Saudação informal, três letras.
“Olá”
Marli termina a última letra, risca o acento e olha por cima dos óculos. Nada. Fora um vulto mais demorado. Retoma suas palavras cruzadas. Um vulto, outro vulto, outro e outro vulto mais .
Um vulto e outro vulto. Parou.
“Dinheiro em inglês”, cinco letras.
_ Quanto é?
_ O quê? Pergunta Marli, enquanto tenta lembrar a palavra.
_ Quanto é o programa?
_ Chupadinha, camisinha e três posições: cinco reais. Responde olhando nos olhos do cliente.
Ele entra calado. Segue o olhar até as coxas grossas e lisas de Marli. Ela fecha a revista de palavras cruzadas, tira os óculos, levanta e fecha a porta. O cara senta na beirada da cama e começa a tirar a roupa, ainda calado.
Marli pega seus apetrechos: um rolo de papel toalha, uma camisinha e o tubo de lubrificante. Tira o sapato de salto alto, a meia-calça e a calcinha. O cliente fica meio decepcionado com o que vê.
_ Pode deitar aí. Diz, quase ríspida.
O sujeito deita-se, olha para o monte flácido e pergunta sem graça: _ Como é seu nome?
_ Regina. Qual posição? Ela fala rápido e embrenha nos grandes lábios o dedo com lubrificante.
_ O quê?
_ Qual posição? Ela repete, com a camisinha quase toda colocada no rapaz.
A olhar o próprio pau empacotado pela camisinha vagabunda, o cliente pergunta outra vez: _ Como é que você se chama?
_ Regina. Responde Marli, antes de abocanhar o cacete. Ela chupa alguns minutos, pára e pergunta: _ Qual a posição?
O cliente, mais parecido com um vulto de olhos arregalados e boca semi aberta, demora a responder. Ela, muito profissional, não se irrita: _ Qual posição?
_ Você por cima, no torno. Finalmente ele responde, de olhos mais arregalados.
Marli trepa no sujeito, ajeita o torno e põe-se a rebolar. A cama range um pouco, o ventilador assopra o incenso forte.
_ Já gozei. Pode parar.
Tudo pronto, roupas vestidas, o cliente enfia a mão no bolso.
_ Tem certeza que não vai querer as outras duas posições?
_ Não.
_ Tem gente que acha pouco três e você quis só uma - ela insiste.
_ Não, obrigado. Tome os seus cinco reais.
O cara paga, abre a porta e sai. O corredor iluminado. O quarto em penumbra.
Um vulto, outro vulto, outro vulto e outro vulto. Marli senta-se na cama e abre novamente suas palavras cruzadas. Um vulto, outro e outro vulto. Parou.
_ Lembrei! Money!!!!! Ela exclama sem olhar a porta.
_ Quanto é?
Depois do Hotel, o Tatu
_ Vai comer mais ou posso levar o prato?
_ Pode levar, com esse calor nem o angu desce direito.
_ Se você quiser, eu trago um caldo de mocotó.
_ Cê tá é doido. Se eu tomar um caldo, acho que caio dura. Vê mais uma long-net bem gelada. Mas vê se tira do canto, que a outra tava meio quente.
_Tá tudo igual.
_A cerveja que você serviu pro rapaz ali tá até com mofo.
_A grande tá muito melhor. Já te falei. Se ocê quiser...
_ Então pode trazer. Mas tem que ser bem gelada.
30 graus, às vezes, parecem 50. Quando saí do hotel Olimpo, estava ótima. Tomei uma ducha caprichada, coloquei uma blusa larguinha, a mini saia e desci pro bar do Tatu. Mas esse lugar é um inferno. É só entrar que parece ter uma semana que não tomo banho. O suor chega a escorrer.
“Bar Tatu, o Rei do Angu”. Devia chamar “Inferno do Tatu, o Rei do Angu”. Ou sei lá o que. Nunca parei pra pensar porque ainda freqüento esse estabelecimento pequeno, com a cozinha gordurosa, telhado de zinco baixo e duas ou três panelas de pressão que chiam o dia inteiro, lotadas com costela de boi e mocotó. Um cheiro quase insuportável de carne cozida.
É verdade que o angu à baiana que ele faz pode mesmo ser considerado o melhor do mundo. Ou, pelo menos da redondeza. Mas o calor é insuportável. E as panelas de pressão sempre sugerem a possibilidade de queimaduras de segundo e terceiro graus.
Talvez ainda freqüente o Tatu porque me sinta mais forte quando observo meus colegas de bar. É só olhar alguns sujeitos que logo me sinto melhor.
Uns caras inchados chegam, pedem um angu grande, com costela de boi ou miúdo de porco, uma cachaça com limão na risca e carregam a mão na pimenta: como se o angu já não fosse apimentado e quente. Depois da quarta ou quinta garfada, o suor... Nó!!! Só de ver, passo mal. Ou melhor, fico bem. Tomo minha cerveja gelada com mais prazer.
_ Aí sua Skol. Só que tá estragada. Tá mofada!
No fundo, eu gosto do bar. Ninguém me incomoda, apesar de tudo. O Tatu me trata bem, fico no meu canto, tomo as minhas e não aparece nenhum cliente do hotel pra encher o saco. De vez em quando, pinta até algum vulto, mas não têm coragem de puxar conversa. Se na zona não falam nada, no bar é que não vai ser.
_ Oi.
Às vezes, alguém até arrisca alguma coisa, mas normalmente não dou trela. O cara se manca e sai vazado. Sabe que se insistir pode ser ruim pra ele.
Não gosto muito de me embebedar. Costumo sim beber todo dia. Mas bebo só cerveja. É mais por hábito que por vício. Na zona tem umas meninas que mexem com porcaria. A Cidinha é uma. É até gente boa, mas é chegada na pedra. Quando tá noiada, é foda. Não chego nem perto. Qualquer hora, vai se foder. Por isso, eu tomo só cerveja. No máximo umas cangibrinas. Muito de vez em quando. Na idade em que estou não posso abusar muito. Fico vendo umas menininhas no hotel que acham que vão ser deusas do Olimpo pro resto da vida. Deixa elas. Uma hora a casa cai.
E tem outra, a gente vai se envolvendo com uns caras errados, até ficar detonada. Vai perdendo o interesse pelas coisas. Amor mesmo tem muito tempo que não sinto nem o cheiro. Vejo cacete de tudo quanto é tamanho, de tudo quanto é tipo, mas prazer acaba que não sinto. Muito difícil. E quando sinto, não deixo o cliente perceber.
Uma coisa é fingir. Outra coisa é gozar de verdade. Quando o cara percebe que eu tô gozando, eu me sinto um pouco humilhada. É como se a essência da minha alma, minha intimidade suprema, ou sei lá, fosse entregue de graça. Talvez seja um pacto tácito que faço comigo mesma para viver na vida, que, quando quebro, a máscara cai e a dignidade diminui, passa a salpicar o prazer perverso no olhar do freguês.
As meninas dizem que eu exagero. Mas acho realmente que é assim. Não é assim o tempo todo, lógico. Também me reservo o sagrado direito à contradição. Trabalho a tantos anos na putaria, não poderia ser diferente. Uma hora o trem acaba que fica gostoso.
Mas, com certeza, não é regra. Hoje, por exemplo, tive um dia razoável. Médio. Meti o suficiente pra pagar a diária, acertar umas contas e tomar minha cervejinha. Nada mais. Sem prazer nenhum. Só fiz o do dia.
Já estou no Tatu há duas horas observando o bar, olhando pra parede, reparando em chiclete de caixinha, uma paçoca Amor, cigarreira, o angu que sai, os corajosos que o comem, coisa e tal.
Não fico pensando em gozar, namorar ou encontrar alguém. Acho que o Tatu deve ser do mesmo jeito. Desde que o conheço, ele vive no boteco servindo bebida, comida, agüentando bêbado, ouvindo o barulho das panelas de pressão, suando, sentindo um calor dos infernos e sujeito a uma eventual explosão das panelas. Queimaduras de segundo e terceiro graus, não consigo esquecer disso.
Depois de tanta convivência, nossa relação funciona como um casamento que vira amizade, ou sentimento de irmãos. Brigamos, fazemos piadinhas cretinas sobre os hábitos do outro, rimos das mesmas coisas. Na verdade, não sei por quê ainda freqüento o bar dele.
Tem muitos conselheiros de sabedoria barata que , viram e mexem, nos dizem que algum dia alguma coisa vai acontecer. Não me refiro a mim e ao Tatu. A todo mundo. Quantas vezes já ouvi um personagem de novela, ou uma pessoa no banco de trás do ônibus, ou uma tia velha, ou a amiga de uma filha ou irmão dizer isso?
Franzem a testa, olham nos nossos olhos com profundidade e, com um ar de filosofia de zona, bombardeiam: “Um dia alguma coisa vai acontecer!”
Eu pago o mesmo preço. Ou - lá vem o clichê - pago com a mesma moeda: “Se tiver que acontecer, vai acontecer”. Vario só o semblante. Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tenho ruga. Vou fazer ruga na testa só pra fingir inteligência. Eu não. Normalmente, adoto um tipo mais resignada. Sabe? Sem esse negócio de franzir a testa.
_ Me vê mais uma cerveja gelada aí, ôh filhinho do Tatu! Que eu tô com sede.
_ Pode levar, com esse calor nem o angu desce direito.
_ Se você quiser, eu trago um caldo de mocotó.
_ Cê tá é doido. Se eu tomar um caldo, acho que caio dura. Vê mais uma long-net bem gelada. Mas vê se tira do canto, que a outra tava meio quente.
_Tá tudo igual.
_A cerveja que você serviu pro rapaz ali tá até com mofo.
_A grande tá muito melhor. Já te falei. Se ocê quiser...
_ Então pode trazer. Mas tem que ser bem gelada.
30 graus, às vezes, parecem 50. Quando saí do hotel Olimpo, estava ótima. Tomei uma ducha caprichada, coloquei uma blusa larguinha, a mini saia e desci pro bar do Tatu. Mas esse lugar é um inferno. É só entrar que parece ter uma semana que não tomo banho. O suor chega a escorrer.
“Bar Tatu, o Rei do Angu”. Devia chamar “Inferno do Tatu, o Rei do Angu”. Ou sei lá o que. Nunca parei pra pensar porque ainda freqüento esse estabelecimento pequeno, com a cozinha gordurosa, telhado de zinco baixo e duas ou três panelas de pressão que chiam o dia inteiro, lotadas com costela de boi e mocotó. Um cheiro quase insuportável de carne cozida.
É verdade que o angu à baiana que ele faz pode mesmo ser considerado o melhor do mundo. Ou, pelo menos da redondeza. Mas o calor é insuportável. E as panelas de pressão sempre sugerem a possibilidade de queimaduras de segundo e terceiro graus.
Talvez ainda freqüente o Tatu porque me sinta mais forte quando observo meus colegas de bar. É só olhar alguns sujeitos que logo me sinto melhor.
Uns caras inchados chegam, pedem um angu grande, com costela de boi ou miúdo de porco, uma cachaça com limão na risca e carregam a mão na pimenta: como se o angu já não fosse apimentado e quente. Depois da quarta ou quinta garfada, o suor... Nó!!! Só de ver, passo mal. Ou melhor, fico bem. Tomo minha cerveja gelada com mais prazer.
_ Aí sua Skol. Só que tá estragada. Tá mofada!
No fundo, eu gosto do bar. Ninguém me incomoda, apesar de tudo. O Tatu me trata bem, fico no meu canto, tomo as minhas e não aparece nenhum cliente do hotel pra encher o saco. De vez em quando, pinta até algum vulto, mas não têm coragem de puxar conversa. Se na zona não falam nada, no bar é que não vai ser.
_ Oi.
Às vezes, alguém até arrisca alguma coisa, mas normalmente não dou trela. O cara se manca e sai vazado. Sabe que se insistir pode ser ruim pra ele.
Não gosto muito de me embebedar. Costumo sim beber todo dia. Mas bebo só cerveja. É mais por hábito que por vício. Na zona tem umas meninas que mexem com porcaria. A Cidinha é uma. É até gente boa, mas é chegada na pedra. Quando tá noiada, é foda. Não chego nem perto. Qualquer hora, vai se foder. Por isso, eu tomo só cerveja. No máximo umas cangibrinas. Muito de vez em quando. Na idade em que estou não posso abusar muito. Fico vendo umas menininhas no hotel que acham que vão ser deusas do Olimpo pro resto da vida. Deixa elas. Uma hora a casa cai.
E tem outra, a gente vai se envolvendo com uns caras errados, até ficar detonada. Vai perdendo o interesse pelas coisas. Amor mesmo tem muito tempo que não sinto nem o cheiro. Vejo cacete de tudo quanto é tamanho, de tudo quanto é tipo, mas prazer acaba que não sinto. Muito difícil. E quando sinto, não deixo o cliente perceber.
Uma coisa é fingir. Outra coisa é gozar de verdade. Quando o cara percebe que eu tô gozando, eu me sinto um pouco humilhada. É como se a essência da minha alma, minha intimidade suprema, ou sei lá, fosse entregue de graça. Talvez seja um pacto tácito que faço comigo mesma para viver na vida, que, quando quebro, a máscara cai e a dignidade diminui, passa a salpicar o prazer perverso no olhar do freguês.
As meninas dizem que eu exagero. Mas acho realmente que é assim. Não é assim o tempo todo, lógico. Também me reservo o sagrado direito à contradição. Trabalho a tantos anos na putaria, não poderia ser diferente. Uma hora o trem acaba que fica gostoso.
Mas, com certeza, não é regra. Hoje, por exemplo, tive um dia razoável. Médio. Meti o suficiente pra pagar a diária, acertar umas contas e tomar minha cervejinha. Nada mais. Sem prazer nenhum. Só fiz o do dia.
Já estou no Tatu há duas horas observando o bar, olhando pra parede, reparando em chiclete de caixinha, uma paçoca Amor, cigarreira, o angu que sai, os corajosos que o comem, coisa e tal.
Não fico pensando em gozar, namorar ou encontrar alguém. Acho que o Tatu deve ser do mesmo jeito. Desde que o conheço, ele vive no boteco servindo bebida, comida, agüentando bêbado, ouvindo o barulho das panelas de pressão, suando, sentindo um calor dos infernos e sujeito a uma eventual explosão das panelas. Queimaduras de segundo e terceiro graus, não consigo esquecer disso.
Depois de tanta convivência, nossa relação funciona como um casamento que vira amizade, ou sentimento de irmãos. Brigamos, fazemos piadinhas cretinas sobre os hábitos do outro, rimos das mesmas coisas. Na verdade, não sei por quê ainda freqüento o bar dele.
Tem muitos conselheiros de sabedoria barata que , viram e mexem, nos dizem que algum dia alguma coisa vai acontecer. Não me refiro a mim e ao Tatu. A todo mundo. Quantas vezes já ouvi um personagem de novela, ou uma pessoa no banco de trás do ônibus, ou uma tia velha, ou a amiga de uma filha ou irmão dizer isso?
Franzem a testa, olham nos nossos olhos com profundidade e, com um ar de filosofia de zona, bombardeiam: “Um dia alguma coisa vai acontecer!”
Eu pago o mesmo preço. Ou - lá vem o clichê - pago com a mesma moeda: “Se tiver que acontecer, vai acontecer”. Vario só o semblante. Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tenho ruga. Vou fazer ruga na testa só pra fingir inteligência. Eu não. Normalmente, adoto um tipo mais resignada. Sabe? Sem esse negócio de franzir a testa.
_ Me vê mais uma cerveja gelada aí, ôh filhinho do Tatu! Que eu tô com sede.
"O que Amava as Mulheres"
Fala baixinho
Não faz pra cantar
No canto do ninho
Só pra Iaiá
faz samba de um filme só
com Truffaut, sem violão
e um computador no gogó
Fala baixinho
Não faz pra cantar
No canto do ninho
Só pra Iaiá
Iaiá Iaiá
Iaiá Iaiá
Não faz pra cantar
No canto do ninho
Só pra Iaiá
faz samba de um filme só
com Truffaut, sem violão
e um computador no gogó
Fala baixinho
Não faz pra cantar
No canto do ninho
Só pra Iaiá
Iaiá Iaiá
Iaiá Iaiá
Terça-feira, Junho 28, 2005
Domingo, Junho 26, 2005
batatas, apontador e bolo
Ninguém nunca teria descoberto se não fossem as batatas estragadas. Desde que resolvi fazer um filme político, que seria também um filme romântico, passei a anotar impressões da vida republicana e todos os comentários que pudesse lembrar de pessoas as mais diversas. Sempre ligado às opiniões de mocinhas e rapazes, velhas e velhos, mas principalmente às das crianças, a cada dia me sentava ao computador para rascunhar uma nova sequência para o filme. A história seguia cheia de alegorias quando, numa manhã de terça-feira, fui surpreendido por um sopro quente de realidade. Nada alegórico. Direto. Quente. Desisti de incluí-lo no roteiro porque ninguém acreditaria que este não fosse mais uma tirada alegórica barata. O diabo é que mesmo o encadeamento das sequências a indicar um final verdadeiramente revolucionário me foi o suficiente para suprimir a teimosia da realidade. Ela insistia em soprar-me os ouvidos, por dentro. Exatamente um mês depois, numa terça-feira igual, fui a um outro hortifruti comprar batatas para um bolo. Pretendia reproduzir uma receita familiar: bolo de batatas com carne moída. Igual ao que minha mãe assava semanalmente. Um saco plático nas mãos e um monte de batatas a frente. Escolhia uma a uma enquanto pensava na criança que um mês antes me havia cutucado na bancada de limões. Absorto em particulares lembranças, passei a escolher batatas estragadas em vez das batatas boas. É verdade que a época e o batateiro facilitaram meu inconsciente trabalho. Uma a uma, escolhi um quilo e meio de batatas estragadas. Passei no caixa, paguei e segui a rua pensando na criança. Assim até à minha cozinha. Cozinhei as batatas estragadas, amassei-as, juntei o recheio e levei ao forno sempre pensando no mesmo assunto. Decidi voltar ao computador, enquanto o bolo estivesse assando, e jogar fora todas aquelas bobagens alegóricas e escrever sobre a verdade. Iniciei o roteiro dessa forma:
01. Sacolão/Interior/Dia
Oito horas em ponto, estou numa bancada de limões em um sacolão quase vazio. Os funcionários estão abastecendo as mercadorias para o dia. Escolho os de casca fina. Um apontador registra as caixas de limões que um outro funcionário começa despejar na bancada. Olho ao redor e percebo um famoso político com sua mulher e o filho pequeno na bancada de abacaxis. Escolhem os maiores, dos que vêm prontos para servir, sem cascas. O apontador termina o trabalho. Caminha em direção aos abacaxis e esbarra voluntariamente nas nádegas da mulher. O político, interessado nos melhores abacaxis-sem-cascas, não percebe nada. A mulher encara o apontador com malícia. A criança imediatamente olha em minha direção. Finjo que nada aconteceu para não constranger a criança e sigo com os limões. Ouço um sussurro vindo da seção de abacaxis. Começo a suar, nervoso. Alguns segundos depois, a criança me cutuca nas costas. Viro-me e dou de cara com o político. A criança me aponta.
-- Foi ele.
Retruco.
-- Eu?
O político saca uma arma e a coloca bem ao lado do meu ouvido. Depois disso, não escuto mais quase nada. Sinto apenas um bafo quente, perco o equilíbrio e saio parcialmente surdo de um dos ouvidos. E completamente apavorado. Olho para trás e ainda consigo ver o político sacar do bolso um bolo de dinheiro e entregar ao apontador. Mesmo em pânico, ouço o que diz, em baixo som.
-- Você nunca me viu pôr as mãos em um abacaxi por aqui.
Os deixei negociando e corri pra casa sem olhar mais pra trás.
02. (...)
Parei o roteiro e fui ver o forno. Estava pronto o bolo. Esperei que todos chegassem e servi o almoço. Não houve como negar a displicência. Todos perceberam as batatas estragadas. Fiquei sem graça e contei a verdade aos meus.
01. Sacolão/Interior/Dia
Oito horas em ponto, estou numa bancada de limões em um sacolão quase vazio. Os funcionários estão abastecendo as mercadorias para o dia. Escolho os de casca fina. Um apontador registra as caixas de limões que um outro funcionário começa despejar na bancada. Olho ao redor e percebo um famoso político com sua mulher e o filho pequeno na bancada de abacaxis. Escolhem os maiores, dos que vêm prontos para servir, sem cascas. O apontador termina o trabalho. Caminha em direção aos abacaxis e esbarra voluntariamente nas nádegas da mulher. O político, interessado nos melhores abacaxis-sem-cascas, não percebe nada. A mulher encara o apontador com malícia. A criança imediatamente olha em minha direção. Finjo que nada aconteceu para não constranger a criança e sigo com os limões. Ouço um sussurro vindo da seção de abacaxis. Começo a suar, nervoso. Alguns segundos depois, a criança me cutuca nas costas. Viro-me e dou de cara com o político. A criança me aponta.
-- Foi ele.
Retruco.
-- Eu?
O político saca uma arma e a coloca bem ao lado do meu ouvido. Depois disso, não escuto mais quase nada. Sinto apenas um bafo quente, perco o equilíbrio e saio parcialmente surdo de um dos ouvidos. E completamente apavorado. Olho para trás e ainda consigo ver o político sacar do bolso um bolo de dinheiro e entregar ao apontador. Mesmo em pânico, ouço o que diz, em baixo som.
-- Você nunca me viu pôr as mãos em um abacaxi por aqui.
Os deixei negociando e corri pra casa sem olhar mais pra trás.
02. (...)
Parei o roteiro e fui ver o forno. Estava pronto o bolo. Esperei que todos chegassem e servi o almoço. Não houve como negar a displicência. Todos perceberam as batatas estragadas. Fiquei sem graça e contei a verdade aos meus.
Sábado, Março 12, 2005
Segunda-feira, Julho 05, 2004
Domingo, Julho 04, 2004
Assinar:
Postagens (Atom)

























































